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Da intuição ao dado: o mercado jurídico diante de uma transformação sem volta

COO do b/luz afirma que escritórios e departamentos jurídicos correm para modernizar operações, mas, sem autoconsciência do ponto de partida, tecnologia vira desperdício

8 de May 15h43

Durante décadas, o escritório de advocacia funcionou segundo uma lógica quase imutável: o advogado como figura central, detentor absoluto do saber técnico, guiado pela experiência acumulada e pelo instinto apurado. Esse modelo resistiu a muito — crises econômicas, reformas processuais, digitalização dos tribunais. Resistiu, mas dificilmente sobreviverá à inteligência artificial. O que antes era uma transformação gradual tornou-se, nos últimos dois anos, diante de uma pressão exponencial que não distingue porte de escritório, especialidade ou região do país.

Entretanto, a urgência da mudança não garante a qualidade dela. No mercado jurídico brasileiro, onde as decisões ainda se apoiam mais na percepção do que em dados, o risco de adotar tecnologias sem planejamento é alto — e o custo, tanto financeiro quanto cultural, pode ser difícil de reverter. É nesse cenário que conceitos como Legal Ops e maturidade operacional deixam de ser jargão de nicho e passam a ocupar a pauta estratégica dos líderes mais atentos.

A publicidade como espelho do jurídico

A transformação digital não é novidade para quem viveu a virada da publicidade brasileira nas últimas duas décadas. Agências que antes operavam no improviso criativo tiveram de abraçar dados, métricas e automação — sob pena de perder relevância para anunciantes cada vez mais exigentes. Para Cristiano Ruiz, COO do b/luz e matemático de formação, esse paralelo não é coincidência: foi ele que o trouxe para o setor jurídico.

"A publicidade passou por uma transformação digital violenta", afirma Ruiz. "O convite para vir para a b/luz surgiu justamente porque nosso CEO via muita similaridade entre o que a publicidade viveu e o momento atual do mercado jurídico."

A comparação é pertinente. Assim como as agências, escritórios e departamentos jurídicos enfrentam hoje a pressão por assertividade, eficiência e linguagem mais acessível ao cliente final. E, também como na publicidade, a resistência à mudança faz parte do processo. "O advogado é um profissional conservador por essência", pondera Ruiz. "Nos últimos dois anos, a transformação vem acontecendo de forma exponencial pela pura necessidade."

O advogado que o mercado precisa

A crise de identidade do advogado moderno não é técnica. É curricular. As faculdades de direito formam profissionais de alto nível cultural, com sólidas habilidades de argumentação e negociação — mas raramente os preparam para gerir equipes, interpretar dashboards ou tomar decisões orientadas por dados. Esse gap sempre existiu; contudo, tornou-se crítico com a chegada massiva da inteligência artificial.

"O advogado foi formado para ser um especialista absolutamente técnico", explica Cristiano Ruiz. "Não foi formado para disciplinas que, no mundo dos negócios, são essenciais, como organizar negócios, gerir pessoas e ser um bom usuário de tecnologia."

Portanto, a transformação exigida vai além da adoção de ferramentas. Trata-se, essencialmente, de uma virada cultural. Para Ruiz, a solução passa pela multidisciplinaridade — trazer para dentro das operações jurídicas profissionais com formações distintas, capazes de conectar o rigor do direito à lógica dos dados. "Isso explica a minha vinda para a b/luz: trazer uma pessoa de exatas para um mundo de humanas, que agora precisa olhar para dados e plugar tecnologia com muita responsabilidade", diz ele.

Diagnóstico antes do remédio

Antes de investir em qualquer solução tecnológica, os líderes jurídicos precisam de uma bússola confiável. Foi com essa convicção que o b/luz desenvolveu o maturity-score — uma plataforma gratuita de diagnóstico que avalia a maturidade operacional de departamentos e escritórios jurídicos. A ferramenta não apenas mede: ela orienta ações concretas.

O processo começa pelo contexto — região, segmento, porte e principal desafio atual da organização. Em seguida, um questionário avalia pilares como estratégia, dados, tecnologia, pessoas, gestão de fornecedores e processos. "Chegamos a essas perguntas após analisar mais de 100 questionamentos comuns de mercado, buscando sempre a causa raiz dos problemas", explica Ruiz.

O sistema gera um score global de 0 a 100 e seis ações prioritárias para os próximos 90 dias. Entre os dados já colhidos, um resultado se destaca: o pilar de Pessoas é consistentemente o mais fraco. "O mercado jurídico tem uma necessidade enorme de desenvolver seus profissionais e de plugar pessoas com formações diferentes para entregar o valor, a organização e a tecnologia que os clientes exigem hoje", conclui Ruiz.

Legal Ops entre a promessa e o resultado

O Legal Ops ganhou visibilidade rápida no Brasil, mas essa velocidade traz riscos concretos. Áreas criadas apenas para acompanhar tendências de mercado, sem estrutura real de atuação, correm o risco de gerar frustração — tanto nas equipes quanto nas lideranças. Por isso, distinguir o Legal Ops que funciona daquele que existe apenas no papel tornou-se uma questão estratégica urgente.

"O que diferencia, de fato, são os resultados", afirma Cristiano Ruiz. "Contudo, precisamos ter cuidado: no Brasil, o Legal Ops é uma disciplina relativamente nova, com cerca de dois anos de atuação mais forte."

Ainda assim, cobrar resultados imediatos pode ser contraproducente. Segundo Ruiz, trata-se de uma jornada que ainda está "na camada da inovação e do investimento", o que significa que os frutos nem sempre aparecem no curto prazo. "O executivo precisa ter a visão de que é um mix de busca por resultados com iniciativas que impactam positivamente a cultura, os processos e o fortalecimento das pessoas", pondera ele.

O advogado como estrategista, não operador

O cenário que se desenha para o mercado jurídico é, ao mesmo tempo, desafiador e promissor. A automação e a inteligência artificial não vão eliminar o advogado — mas vão redefinir profundamente o que se espera dele. Consequentemente, quem investir na transição com antecedência terá vantagem competitiva significativa sobre os que esperarem.

"O papel do advogado que efetivamente advoga será muito mais qualificado, focando em sua essência: ser estrategista, negociador e gerador de valor", projeta Ruiz. Além disso, para quem migrar para o Legal Ops, o horizonte é ainda mais amplo. "Advogados que fizerem a transição de carreira para o Legal Ops vão adquirir um conhecimento valioso em operações, finanças e tecnologia, ficando muito mais preparados para assumir cadeiras de CEO ou de liderança C-level", afirma ele.

Assim, a mensagem para os líderes jurídicos que ainda hesitam é direta: o primeiro passo não é escolher uma ferramenta. É entender onde se está. "Eles devem agir de forma estratégica, em vez de simplesmente 'plugar' um monte de tecnologias e gastar muito dinheiro sem preparar as equipes", conclui Ruiz. "O primeiro passo é ter autoconsciência do momento atual."

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