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Cubo Itaú promove evento sobre o papel da IA no futuro jurídico

Tecnologia já impacta fluxos, reduz custos e desloca o valor do advogado para funções estratégicas, segundo líderes jurídicos reunidos no Cubo Itaú

23 de April 21h35
(Imagem: Jonatta Moreno dos Santos)

O Cubo Itaú realizou na tarde de hoje, 23, o evento "Roundtable - Law as a business: a era full AI para o jurídico", que reuniu líderes jurídicos para discutir sobre direito, tecnologia e negócios. O Cubo é um Hub de inovação cujo papel é conectar startups, parceiros, investidores e corporações para gerar negócios e inovação. O evento abordou os desafios do mercado na era da IA e promoveu conexões e reflexões sobre o tema.

A conversa foi mediada por Celina Salomão, CEO da ForeLegal e por Eric Fontenele, CEO da Bits. Juntos, reuniram quatro convidados, divididos em dois talks, para discutir sobre como a IA pode ser aplicada à gestão jurídica. Alinhando inovação com governança e estratégia, eles apresentaram cases, soluções que encontraram ao longo de suas trajetórias e anos de experiência no mercado.

Em conjunto, as falas apontam para uma transformação profunda no setor jurídico, em que a tecnologia redefine não apenas processos, mas também modelos de negócio e papéis profissionais. Enquanto a IA amplia capacidades e reduz custos operacionais, o valor humano se concentra em competências estratégicas e relacionais.

Transformação digital e novos fluxos no jurídico corporativo

Nathália Medeiros, coordenadora jurídica da EcoRodovias, e Gustavo Biagioli, diretor jurídico do Trench Rossi Watanabe, foram os convidados do primeiro talk. Medeiros iniciou dizendo que a companhia passa por uma jornada de transformação digital e automação. Esse movimento abrange desde a revisão visual de contratos até a aplicação de inteligência artificial no dia a dia jurídico.

Ela conta dos projetos desenvolvidos, tanto por ela quanto pela equipe, que exigiram meses de preparação. Por exemplo, um playbook focado nas dores reais do processo contratual: riscos, pontos críticos e diretrizes inegociáveis para a Ecorodovias. Projeto em que se debruçou por cinco meses, entendendo a IA e aplicando-a em seus processos.

"Uso a IA com duas 'personalidades': como estagiária, para adiantar trabalho analítico, como a montagem de planilhas de riscos contratuais. E, como revisora sênior, para dar o toque final em trabalhos mais complexos. Com pouco, consegui fazer muito", argumenta Medeiros.

Já o diretor jurídico conta que, no caso do Trench Rossi, o desafio era organizar uma base de dados fragmentada para atender cerca de mil clientes com demandas de relatórios em frequências distintas. Cada advogado trabalhava em um formato diferente: Word, Excel, sistemas proprietários. O projeto, desenvolvido em parceria com a ForeLegal, consiste em utilizar IA, principalmente, para estruturar essa base e revisar todos os processos. O objetivo final é desligar softwares de legado, substituir fluxos obsoletos e chegar a relatórios que entregam inteligência real ao cliente. O que o cliente não quer mais pagar é pela operação. O que ele valoriza é o expertise.

"Todas as empresas hoje são empresas de tecnologia. Quem não compreender a tecnologia como parte da finalidade do negócio já deixa metade da solução de fora. A IA deixou de ser uma ferramenta para se tornar um co-trabalhador, uma inteligência que opera junto à nossa", afirma Biagioli.

IA redefine o modelo dos escritórios e a atuação jurídica

Para o segundo momento do talk, Luis Claudio Casanova, diretor jurídico da Ford, e Carlos Motta, sócio fundador do C MOTTA Advogados, foram os convidados. A conversa foi pautada na mudança estrutural no modelo de prestação de serviços jurídicos a partir do uso intensivo de inteligência artificial.

De acordo com Carlos Motta, a inteligência artificial representa uma nova estrutura no Direito. Segundo ele, o verdadeiro diferencial está na capacidade de treinar e configurar sistemas de IA para refletir o raciocínio jurídico de alto nível, elevando drasticamente a produtividade e a complexidade das entregas. Além disso, Motta reforçou que o valor do advogado estará concentrado nos aspectos que a IA ainda não alcança plenamente: experiência, estratégia e capacidade de relacionamento.

"Durante cerca de um ano, dediquei duas horas diárias ao treinamento e uso dessas ferramentas. Isso fez toda a diferença. Não se trata de uma simples ferramenta — é um novo tipo de interação. [...] Com o tempo, o modelo começou a responder de forma muito próxima ao meu raciocínio jurídico. Isso impactou diretamente minha decisão de sair de um grande escritório e criar uma estrutura própria, sem sistemas legados, totalmente orientada à IA", afirma Motta.

Já Luis Cláudio Casanova trouxe a visão prática do departamento jurídico. Ele mostra como a adoção de IA tem sido essencial para lidar com grandes volumes de demandas, especialmente em áreas como contencioso. Além disso, a tecnologia permite ganhos relevantes de eficiência, automação e análise de dados, além de contribuir para a prevenção de litígios e melhoria da experiência do cliente.

"Nós temos um fórum de discussão onde cada área apresenta qual foi sua solução, o quanto gerou de economia financeira, porque você evitou de fazer alguma compra ou quanto gerou de ganho de horas naquela atividade que você fazia antes. Nós sempre procuramos ter esse direcional para poder medir isso e falar que é um resultado, porque senão você fica usando IA por IA", analisa Casanova.

O futuro do direito exige estratégia, tecnologia e reposicionamento

O evento deixou claro que a inteligência artificial já não é uma tendência futura, mas um vetor presente de transformação no Direito, capaz de redefinir desde a execução das tarefas mais operacionais até a lógica de geração de valor no setor.

Logo, ao reunir diferentes perspectivas, de escritórios, departamentos jurídicos e empresas, o debate evidenciou que a adoção da IA exige mais do que investimento em tecnologia: demanda revisão de processos, mudança cultural e desenvolvimento de novas competências. Desse modo, o diferencial competitivo passa a estar na capacidade de integrar conhecimento jurídico, estratégia e domínio tecnológico para gerar eficiência, previsibilidade e impacto real nos negócios.

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