Todo ano, o mercado jurídico absorve dezenas de milhares de novos advogados. A maioria enfrenta a mesma barreira: precisa competir com escritórios estruturados, mas trabalha sozinha e sem infraestrutura tecnológica. Além disso, o início de carreira na advocacia se caracteriza pelo isolamento. Muitos desistem antes de completar três anos. A estatística não é nova, mas continua perturbando quem acompanha o setor jurídico de perto.
É nesse cenário que a AASP — Associação dos Advogados anuncia uma reorientação estratégica. A instituição, fundada em 1912, está redesenhando serviços e expandindo sua presença territorial para tornar-se uma aceleradora institucional da jovem advocacia brasileira. Para isso, contudo, precisará superar obstáculos concretos. Vão desde barreiras econômicas até a desconfiança de quem nunca imaginou ser o público de uma entidade paulistana.
De paulistana a nacional: a lógica da expansão
A expansão de uma associação com raízes marcadamente paulistanas levanta perguntas legítimas. O risco de um colonialismo institucional — em que padrões de São Paulo sobrepõem realidades regionais diversas — é concreto. Por isso, a AASP tem construído sua estratégia em parceria com lideranças locais, em vez de impor uma agenda centralizada.
A presidente da AASP, Paula Lima Hyppolito Oliveira, explica que o ponto de partida é o reconhecimento da diversidade. "Nossa expansão nacional nasce da compreensão de que a Advocacia brasileira é diversa e de que as instituições precisam dialogar com essa diversidade. Por isso, a estratégia da AASP tem sido construída em parceria com seccionais e subseções da OAB, como fizemos recentemente com Sergipe, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Pará, Escolas Superiores da Advocacia, universidades e lideranças regionais", detalha.
Em 2025, a associação participou de mais de 200 eventos regionais e nacionais. Hoje, 16% da base associativa já está fora de São Paulo. O número ainda é modesto, mas representa uma virada simbólica para uma instituição cujo perfil sempre gravitou em torno do eixo sudeste.
A porta de entrada: política de acesso
Para uma associação voluntária, o maior obstáculo é quase sempre financeiro: convencer um profissional com renda limitada a pagar uma mensalidade. O início de carreira na advocacia costuma ser precário. Por isso, a decisão de se filiar à AASP compete, na prática, com despesas básicas e prioridades urgentes.
Paula Lima reconhece que o acesso financeiro é um filtro real. "Entendemos que o acesso é um fator decisivo. Por isso, criamos uma política progressiva de contribuição associativa, no plano digital, para este grupo: recebem 75% de desconto no primeiro ano de inscrição na OAB, 50% no segundo ano e 25% no terceiro ano", explica a presidente.
A lógica da escada progressiva é criar uma janela de entrada acessível o suficiente para que um recém-formado experimente os serviços antes de arcar com o custo integral. Além disso, estudantes e estagiários inscritos na OAB podem aderir ao Plano Estudante. O modelo aposta, portanto, na construção de um hábito associativo que sobreviva ao fim dos descontos.
O que muda para quem está cidades menores
Durante décadas, os melhores eventos jurídicos, as maiores bibliotecas do Direito e as redes profissionais mais influentes gravitavam em torno das capitais. Um advogado no interior de Mato Grosso competia em desigualdade estrutural — não por falta de talento, mas por falta de acesso. A AASP identifica exatamente essa dificuldade como seu principal campo de atuação.
"Ele ganha acesso a oportunidades que, durante décadas, estiveram concentradas em poucas capitais brasileiras", afirma Paula Lima sobre o impacto para um associado fora dos grandes centros. A presidente ressalta, ainda, um componente humano frequentemente negligenciado: "O início da Advocacia costuma ser um período de enorme isolamento profissional. Quando esse advogado ou essa advogada passa a fazer parte de uma comunidade com mais de 75 mil profissionais que compartilham conhecimento, experiências e oportunidades, deixa de enfrentar os desafios da profissão de forma isolada e ganha a força do associativismo."
Em termos práticos, ferramentas como o AASP Gerenciador centralizam intimações, contratos e agenda em uma plataforma única. Assim, um advogado autônomo passa a contar com infraestrutura típica de escritórios com equipe de tecnologia.
OAB e AASP: parceria em vez de disputa
A relação entre uma associação voluntária e a entidade compulsória que representa toda a classe carrega sempre o potencial de ambiguidade. Na prática, AASP e OAB dividem espaços, narrativas e, em alguma medida, o mesmo público. No entanto, para Paula Lima, a diferença estrutural entre as duas instituições é justamente o que torna a parceria produtiva — e não competitiva.
"A OAB possui atribuições constitucionais fundamentais para a defesa das prerrogativas da Advocacia, da cidadania e do Estado Democrático de Direito. A AASP, por sua vez, concentra sua atuação no fortalecimento do exercício profissional por meio de conhecimento, inovação, formação continuada, tecnologia e serviços", explica a presidente. Para ela, as missões são complementares, não concorrentes.
A convergência entre as duas instituições se materializa hoje em mais de 20 parcerias com seccionais da Ordem e 17 acordos com instituições de ensino em diferentes estados. Consequentemente, o advogado jovem na ponta da cadeia tem acesso a uma rede de suporte que combina a legitimidade institucional da OAB com os recursos digitais da AASP — um arranjo difícil de replicar de forma isolada.
Letramento digital: o desafio que vai além da ferramenta
Disponibilizar tecnologia para quem não teve formação para usá-la é, no mínimo, insuficiente. A curva de adoção de ferramentas digitais na advocacia é lenta — não por preguiça, mas porque a formação jurídica brasileira ignorou, historicamente, competências tecnológicas, de gestão e de comunicação. A AASP, portanto, parece ter clareza sobre esse diagnóstico.
"O desafio não é tecnológico. É educacional", afirma Paula Lima com precisão. Por isso, a associação investe em conteúdos sobre transformação digital, inteligência artificial e gestão profissional em paralelo às ferramentas disponíveis. "Nossa visão é simples: a democratização da tecnologia só acontece quando vem acompanhada da democratização do conhecimento", complementa.
Nesse sentido, a Rota da Jovem Advocacia — programa criado em parceria com as Escolas Superiores da Advocacia das OABs — não surgiu para apresentar produtos. Ela nasceu para discutir o futuro da profissão, com temas como inteligência artificial, empreendedorismo jurídico e produtividade. Assim, prepara o profissional para um ambiente que muda mais rápido do que os currículos universitários conseguem acompanhar.
Cinco anos para provar: o que mede o sucesso
Movimentos institucionais de largo alcance são fáceis de anunciar e difíceis de sustentar. Por isso, a questão dos indicadores de sucesso revela muito sobre a maturidade de uma estratégia. A AASP tem métricas quantitativas — crescimento da base fora de São Paulo, expansão de parcerias, volume de acesso às plataformas. No entanto, Paula Lima deixa claro que o termômetro principal é outro.
"Para nós, o indicador mais importante é qualitativo", afirma a presidente. "Se, daqui a cinco anos, encontrarmos uma geração mais preparada, mais conectada, mais capacitada tecnologicamente e com melhores condições de permanência e crescimento na profissão, teremos alcançado nosso objetivo", conclui.
A meta, portanto, vai além de crescer em número de associados. Trata-se, sobretudo, de reduzir o peso que o CEP tem na trajetória de um advogado. Se a AASP conseguir provar essa tese nos próximos anos, terá construído algo mais duradouro do que qualquer campanha de filiação: um novo argumento para o valor do associativismo na advocacia brasileira.

