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Como as soft skills podem trazer mais eficiência aos escritórios

A pesquisa People Trends 2026 aponta o foco em resultados como a habilidade mais valorizada e pressiona escritórios a rever seus modelos de gestão

20 de April 8h10
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

Cada vez mais, o mercado de trabalho exige profissionais capacitados não apenas por suas competências técnicas, mas também por suas características comportamentais. Diante desse cenário, as soft skills tornaram-se ativos estratégicos para as empresas sob diferentes justificativas. No entanto, o objetivo final permanece constante: transformar o colaborador em um vetor de resultados.

A pesquisa People Trends 2026, realizada pela consultoria Evermonte Institute, confirma essa tendência. O levantamento feito com 101 lideranças de gestão de pessoas no Brasil apontou que 70,7% dos entrevistados consideram a orientação a resultados como a habilidade mais essencial para 2026. Essa competência supera, inclusive, atributos tradicionais como comunicação e escuta ativa (57,3%) e resiliência (56%).

Quando direcionamos o olhar para o setor jurídico, esse fenômeno impõe um desafio interno às bancas brasileiras. A questão central reside em como a gestão das bancas pode incentivar advogados a otimizarem a teoria jurídica para aumentar a capacidade de execução e resolução de problemas, agregando assim maior valor ao atendimento prestado aos clientes.

Soft Skills promovem reestruturação de rotinas

De acordo com a pesquisa, a execução consistente do trabalho superou a teoria em cenários de alta complexidade. Considerando que o ambiente jurídico é um dos mais complexos, a vantagem competitiva das bancas reside na união entre técnica e comportamento. Nesse contexto, a capacidade de execução consolida-se como o pilar essencial para o sucesso dos escritórios.

Contudo, existe uma distância entre o planejamento e a prática. Raissa Montoro Market, sócia e COO do Vigna Advogados Associados, afirma que, para os escritórios conseguirem alcançar esse desempenho, é preciso uma reestruturação do modelo operacional de atuação. Segundo a sócia, a mudança de mentalidade deve começar pela forma como o serviço é concebido e oferecido.

"Os escritórios devem deixar de concentrar seus esforços exclusivamente na produção de teses e peças jurídicas, priorizando a resolução efetiva do problema do cliente sob uma perspectiva que certamente integre tanto o jurídico quanto os vieses administrativo e negocial", complementa Market.

Vale frisar que, dentro dessa reestruturação, o uso de ferramentas tecnológicas que permitam o acompanhamento por meio de KPIs jurídicos é indispensável. A adoção dessas tecnologias garante maior previsibilidade, inteligência estratégica e suporte para a tomada de decisão, contribuindo diretamente para a eficiência e a escalabilidade do negócio.

"Estruturar fluxos de trabalho orientados a resultados é fundamental. O foco da gestão deve ser viabilizar a melhor solução no menor tempo possível, buscando sempre reduzir os impactos financeiros e operacionais para o cliente", acredita a sócia do Vigna Advogados Associados.

O incentivo vem de cima

Nenhuma transformação real acontece sem que a gestão interna tome a dianteira. Na visão da administradora e CEO do Lara Martins Advogados, Ana Zunino, uma estratégia só ganha força quando se torna rotina. No contexto dos escritórios, isso significa converter a técnica jurídica em entrega consistente, pautada por método, disciplina e capacidade de adaptação.

Tanto é que, para que essa evolução se concretize, a liderança precisa conhecer profundamente sua equipe e identificar as competências necessárias para uma entrega de excelência. A partir desse diagnóstico, os escritórios devem consolidar uma cultura de capacitação continuada, que pode ser viabilizada por meio de processos fundamentais como:

  • Reuniões de lições aprendidas;
  • Feedbacks frequentes;
  • Treinamentos internos;
  • Grupos de estudo;
  • Análise de erros;
  • Mentorias.

Embora esses movimentos pareçam simples, Zunino acredita que eles fazem a diferença ao auxiliarem o time a aprender com a própria operação. Dessa forma, torna-se possível ajustar rotas rapidamente e reduz a dependência exclusiva do talento individual de cada colaborador.

Essa mentalidade ganha ainda mais relevância no universo empresarial. A CEO do Lara Martins Advogados observa que o cliente corporativo valoriza a precisão técnica, mas também exige celeridade, clareza, previsibilidade e compreensão de seu negócio. Por esse motivo, o conhecimento jurídico deve caminhar lado a lado com a disciplina de execução e o aprendizado constante.

"Quando o escritório desenvolve pessoas de forma intencional, ele constrói uma capacidade coletiva de entrega e transforma estratégia em valor real para o cliente", destaca Zunino.

Desenvolvimento das soft skills de lideranças

Apesar da clara necessidade de transformação nas bancas, nem sempre a liderança está preparada para a tarefa. Nesse sentido, é imprescindível que a gestão cultive uma comunicação clara, equilíbrio emocional e consistência em suas decisões.

A People Trends 2026 reforça essa demanda ao apontar soft skills indispensáveis para as lideranças, como inteligência emocional (52%), agilidade (40%), pensamento crítico (38,7%), flexibilidade (32%), tomada de decisões (28%) e negociação (20%), além de criatividade e sociabilidade (ambas com 12%). Tais habilidades devem estar intrínsecas aos gestores para o sucesso da operação.

É por essa razão que Ana Zunino defende que o autodesenvolvimento deve vir antes do ato de liderar. Para que isso seja possível, a CEO recomenda que os escritórios promovam programas específicos que trabalhem essas competências comportamentais para as lideranças. Já para os advogados em si, Zunino acredita que o desafio consiste em desenvolver domínio próprio e clareza emocional para agir com equilíbrio mesmo sob intensa pressão.

"É preciso que a resiliência e a inteligência emocional saiam do discurso e entrem na rotina dos escritórios. Não basta dizer que as pessoas precisam lidar melhor com a pressão; é preciso prepará-las efetivamente para isso", enfatiza Zunino.

Ferramentas de recrutamento e seleção

No mercado de trabalho, existem inúmeros talentos capazes de agregar valor aos resultados dos escritórios de advocacia. Por esse motivo, a etapa de recrutamento e seleção exige um olhar mais apurado para identificar as soft skills essenciais ao negócio.

Raissa Montoro Market acredita que é possível otimizar esse processo ao combinar ferramentas que aumentem a precisão da escolha. Tal abordagem garante a entrada de profissionais alinhados às exigências emocionais e cognitivas da banca, reduzindo a rotatividade e elevando o desempenho.

"O ideal é estruturar entrevistas baseadas em competências e utilizar simulações práticas que possibilitem a identificação de agilidade e capacidade de raciocínio. Além disso, o pensamento crítico deve ser testado para verificar a capacidade de tomada de decisão sob pressão e a solução de problemas e desafios jurídicos reais", sugere Market.

Mudança de visão

Diante deste cenário, as lideranças precisam compreender que as competências comportamentais não são mais diferenciais, mas fatores necessários para garantir a sustentabilidade e a escalabilidade dos escritórios. Isso exige que as bancas rompam com o modelo tradicional e deixem de priorizar exclusivamente o domínio técnico ou o tempo de casa na escolha de líderes e colaboradores.

Na visão de Ana Zunino, a consolidação dessa mudança depende de transformar as soft skills em critérios objetivos nos processos seletivos, nas avaliações de desempenho e até na composição da remuneração variável. No caso das lideranças, torna-se imprescindível medir a capacidade de desenvolvimento de equipes, a resolução de conflitos e a garantia de resultados por meio da gestão de pessoas, superando a visão limitada das entregas individuais. Em última análise, a CEO do Lara Martins Advogados afirma que o sucesso institucional depende da valorização do capital humano como pilar central da governança jurídica.

"Quando as soft skills passam a ser medidas, desenvolvidas e reconhecidas, elas deixam então de ser um diferencial subjetivo e se tornam parte da infraestrutura de crescimento do escritório. Sem essas competências, a técnica pode até existir, mas dificilmente escala com qualidade", finaliza Zunino.

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