Cada vez mais as empresas têm buscado ampliar a adoção de processos de energia limpa em suas operações. Grande parte desse movimento deve-se à pressão social por práticas sustentáveis, consideradas fundamentais para mitigar os impactos ambientais causados pelas organizações. No entanto, o cenário levanta um debate sobre o equilíbrio entre o investimento nessas iniciativas e a manutenção da saúde financeira dos negócios.
De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), 48% das empresas já investem em projetos de energia hídrica, eólica, solar, biomassa e hidrogênio de baixo carbono. O índice representa um avanço significativo em comparação a 2023, quando o registro era de 34%.
Contudo, o aporte em energia limpa, especialmente em tecnologias inovadoras, também pode representar um fator de risco. É o caso da startup francesa Naarea (Nuclear Abundant Affordable Resourceful Energy for All). Criada para desenvolver minirreatores nucleares a sal fundido, a companhia anunciou recuperação judicial em 2025, mesmo após captar 90 milhões de euros.
O projeto sofreu reveses diante da necessidade de um investimento estimado em 2 bilhões de euros e da ausência de novos subsídios do governo francês. A escassez de recursos, somada à instabilidade política do país, inviabilizou a continuidade da operação, que agora entrou em fase de liquidação judicial.
Este cenário reforça a necessidade de as organizações planejarem investimentos em energia limpa que sejam financeiramente sustentáveis. O objetivo é evitar que a transição energética resulte em crises de insolvência ou que as empresas acabem recorrendo ao greenwashing como alternativa superficial à falta de viabilidade econômica para atender aos anseios do mercado.
Blindagem corporativa
Práticas de sustentabilidade, mesmo aquelas que não se restringem à energia limpa, geram impactos positivos na receita das organizações. De acordo com levantamento da consultoria ESG Insights, 95% dos consumidores brasileiros dizem preferir consumir marcas que investem em ações sustentáveis.
Contudo, essas iniciativas ainda demandam grandes investimentos por parte das empresas, e com isso, a necessidade de repassar os custos ao cliente final, o que nem sempre é visto com bons olhos. É o que aponta o levantamento Reputação 360º: o ESG além da sustentabilidade, realizado pela Ipsos. A pesquisa revela que 75% dos entrevistados acreditam que as organizações devem absorver os custos da transição sustentável de forma que não atinjam o consumidor.
Luis Gustavo Miranda, sócio do Rolim Goulart Cardoso, afirma que investidores podem aplicar recursos em energia limpa de forma financeiramente sustentável sem repassar despesas ao cliente final. Para isso, ele ressalta a necessidade das empresas implementarem estratégias financeiras sólidas, capazes de estabelecer limites claros de risco, diretrizes de investimento e a margem de perdas que estão dispostas a assumir.
Sustentabilidade terceirizada
A Naarea, apesar de não possuir clientes comerciais operacionais com contratos de fornecimento de energia finalizados até o início de 2026, captou aportes por meio de outras iniciativas. A startup encontrava-se ainda no estágio de projeto, com foco no desenvolvimento tecnológico de um protótipo funcional previsto para 2028.
O que existia eram acordos de cooperação, como a assinatura de um memorando de entendimento com a Automotive Cells Co. (ACC), joint venture que fabrica baterias para veículos elétricos da Stellantis, Mercedes-Benz e TotalEnergies. O objetivo era estudar o uso dos reatores, o que não implicava um contrato de compra de energia em vigor.
Essa questão de contratar outras empresas para o desenvolvimento de tecnologias limpas é uma prática comum no mercado, pois exime a empresa de se tornar especialista em energia limpa para implementar tais iniciativas internamente. O risco desse processo é que, frequentemente, as prestadoras podem declarar falência por razões diversas, deixando as organizações contratantes desamparadas.
Camila Pepe, sócia do Stocche Forbes, afirma que as empresas podem identificar sinais de insolvência ou incapacidade técnica por parte das prestadoras antes mesmo do início do projeto. Entre os indicadores mais comuns estão modelos de negócio dependentes de rodadas futuras de financiamento ou de subsídios públicos. Além disso, a ausência de capital de contingência e cronogramas de implantação incompatíveis com as exigências regulatórias e de licenciamento, também são sinais de atenção.
Também se deve levar em consideração a falta de validação da tecnologia em escala comercial, especialmente em projetos que dependem de soluções não testadas ou que carecem de fornecedores com histórico comprovado de execução. No âmbito contratual, a sócia aponta também que são consideradas "bandeiras vermelhas" estruturas com alocação inadequada de riscos, a ausência de garantias de performance e a fragilidade nos mecanismos de governança e reporte técnico, o que pode comprometer a viabilidade do serviço.
Desvios de investimento em energia limpa
Em momentos de crise corporativa, não é raro que orçamentos antes direcionados a demandas específicas sejam repassados para outras operações. É nesse estágio que as organizações devem implementar políticas claras para evitar que a agenda de sustentabilidade fique desprotegida.
A forma mais eficaz de mitigar esse risco é estruturar mecanismos de segregação e rastreabilidade do uso dos recursos desde o início da operação, destaca Camila Pepe. A sócia do Stocche Forbes aponta que, sob a perspectiva contratual, é fundamental usar cláusulas que isolem os riscos financeiros de um projeto das operações da empresa controladora.
Entre os instrumentos que Pepe considera essenciais estão estruturas como SPVs (Special Purpose Vehicles) dedicadas. Além disso, também é preciso inserir contas vinculadas e regras claras para destinação de recursos em contratos de financiamento ou na emissão de instrumentos verdes.
"Esses mecanismos permitem que os recursos sejam aplicados exclusivamente nos projetos elegíveis, com controles operacionais e jurídicos que reduzem o risco de redirecionamento para outras necessidades de caixa da companhia", complementa a sócia do Stocche Forbes.
Já para Salim Saud, sócio do Saud Advogados, este é o momento em que a governança da empresa precisa prestar mais atenção. Na visão do sócio, uma série de mecanismos podem ser implementados, e nem todos exigem uma alta complexidade técnica.
"A forma mais simples de tratar o desvio de valores é pela adoção de regras claras de governança, com prestações de contas periódicas e a exigência de aprovação prévia para a realização de desembolsos. A execução de uma due diligence rigorosa também é essencial para mitigar esses riscos", conclui Saud.
Due diligence: uma ferramenta essencial
Nesse cenário, a due diligence consolida-se como uma ferramenta indispensável não apenas para identificar desvios de verbas destinadas a iniciativas ambientais, mas também para atestar se a organização opera com integridade e rigor técnico. A ausência dessa prática expõe a companhia a riscos regulatórios severos, capazes de desencadear ações judiciais e comprometer gravemente sua reputação perante o mercado.
Edis Milaré, jurista e sócio do Milaré Advogados, avalia que, para uma due diligence realmente eficaz, é indispensável a atuação de uma equipe multidisciplinar. Esse grupo não deve envolver apenas advogados, mas também especialistas de outras áreas, como biólogos e engenheiros, a depender da demanda. Estes profissionais são essenciais para validar a real sustentabilidade dos projetos que a organização pretende implementar.
"Qualquer empresa que conte com assessoria técnica pode realizar uma due diligence para verificar se o projeto está em conformidade com os princípios inovadores. Isso caracteriza o compliance em sentido amplo. Esse procedimento pode ser executado tanto por escritórios especializados quanto por empresas que possuam departamentos de gestão ambiental estruturados internamente", destaca Milaré.
Greenwashing: o risco de governança para as empresas
Atualmente, é comum encontrar companhias que dizem ter aderido a práticas de ESG. Seja pela adoção de energia limpa ou pela reutilização de água, essas iniciativas acabam tornando as marcas mais atraentes perante a sociedade. Contudo, quando as organizações alardeiam ações sustentáveis que elas não cumprem efetivamente, elas criam o fenômeno do greenwashing.
De acordo com a pesquisa "Greenwashing no Brasil: Um estudo sobre as alegações ambientais nos produtos - Edição 2024", realizada pela Market Analysis Brasil com o apoio do Instituto Akatu, 85% dos produtos no mercado que se declaram preocupados com o meio ambiente apresentam informações falsas ou enganosas. O índice é próximo ao registrado em 2014, quando a taxa era de 83%. O dado indica que, mesmo sob pressão social, muitas empresas ainda arriscam sua legitimidade e reputação com propagandas sustentáveis enganosas.
Empresas que praticam greenwashing estão sujeitas a punições severas, incluindo sanções civis e criminais por induzirem investidores e o público ao erro. Nesse cenário, a conformidade legal consolida-se como uma blindagem essencial contra riscos jurídicos e prejuízos à atividade empresarial.
"A legislação traça as regras básicas que, quando devidamente cumpridas, garantem segurança jurídica tanto à comunidade quanto ao empreendedor. Caso uma empresa divulgue práticas sustentáveis e sua promessa seja apenas retórica, ela poderá responder não apenas civilmente, com responsabilidade objetiva, independente de culpa, mas também criminalmente", alerta Edis Milaré, jurista e sócio do Milaré Advogados.
A fim de evitar cenários como esses, a alternativa mais segura para investir em energia limpa de forma financeiramente sustentável é o estrito cumprimento da legislação ambiental. Milaré finaliza defendendo que seguir essas normas é fundamental para impedir práticas prejudiciais ao ecossistema e à própria sustentabilidade do negócio.

