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Como a liderança feminina está redesenhando a gestão no Direito

Novos modelos de governança e cultura organizacional impulsionam a ascensão de mulheres a posições estratégicas na advocacia

2 de March 15h54
(Imagem: Análise Editorial/Divulgação)

A liderança feminina e novos modelos de gestão são exemplos de que há um movimento transformando o mercado jurídico. Em um ambiente historicamente masculino e rígido como a advocacia, vemos mulheres ocupando cada vez mais cadeiras, espaços e diálogos. Os desafios enfrentados são muitos, mas a determinação é significativamente maior.

Há cerca de 10 anos, era mínimo o papel de mulheres do mundo jurídico. Por estarem fora das rodas de charuto, jantares e happy hours que tradicionalmente faziam parte do networking da área, a chance da escalada de advogadas para quadros societários ou cargos executivos em empresas era mínima, beiravam o impossíveis.

Um escritório majoritariamente feminino funciona de maneira diferente dos modelos tradicionais?

O Kincaid Mendes Vianna Advogados atualmente conta com 55% de mulheres e 45% de homens na composição global do escritório. Camila Mendes Viana Cardoso, sócia do escritório, diz que atualmente, o escritório conta com uma liderança equilibrada entre mulheres e homens, e isso contribui para uma gestão mais diversa e complementar. No entanto, afirma. "Percebemos o aumento de mulheres em cargos de liderança, que efetivamente participam da estratégia e do direcionamento do crescimento dos escritórios de advocacia. Mas acredito que vamos acompanhar, nos próximos anos, o crescimento cada vez maior do empoderamento das mulheres".

O avanço, segundo a sócia, é resultado da combinação entre cultura organizacional, igualdade de oportunidades e a trajetória das próprias profissionais. O escritório mantém uma liderança equilibrada entre mulheres e homens, com foco no desenvolvimento por mérito, no crescimento contínuo e em um ambiente colaborativo, o que favorece a formação de lideranças diversas e complementares. De forma similar se dá com a liderança diversa, com forte presença feminina, que contribui para relações mais próximas e colaborativas com os clientes. Isso se reflete em uma escuta mais atenta às demandas, na construção de soluções personalizadas e em uma condução estratégica dos projetos jurídicos.

"As mulheres são maioria no Kincaid e acreditamos que a valorização da diversidade é um imperativo ético e uma liderança diversificada gera melhores resultados e fortalece a nossa cultura e propósito" diz Mariana Pinheiro de Castro do Rego Barros, Gerente de RH.

Construindo um ambiente mais inclusivo e sustentável dentro da advocacia

Juliana Bumachar vem de um modelo tradicional. Após herdar o escritório do pai, reconfigurou o Bumachar Advogados em um escritório que prioriza dar oportunidades às mulheres dentro do escritório. Hoje a banca conta com mais de 65% da equipe composta por advogadas, além de 67% dos cargos de chefia serem capitaneados por mulheres.

A sócia que atua na área de insolvências conta que há cerca de 13 anos, havia poucas mulheres atuando com a especialidade, e que ouvia de seu pai "Vá ser juíza, minha filha. Essa área é muito dura, só tem homens, vai ser difícil". Mas por insistência, construiu sua marca na área. "Hoje a realidade é um pouco diferente, já existem grupos de mulheres dedicados ao tema, mas naquele momento o ambiente era extremamente masculino. Uma das minhas motivações foi justamente abrir espaço para que outras mulheres pudessem atuar nesse segmento e mostrar que isso é possível", complementa Bumachar.

Na visão da sócia do Bumachar Advogados, garantir que as advogadas mais jovens tenham contato direto com os clientes é essencial para desenvolver segurança profissional. Quando essas profissionais participam de reuniões, congressos ou palestras, já chegam mais preparadas e confiantes. É fundamental abrir espaço para que essas mulheres possam errar, aprender e crescer. Se não houver oportunidade de exposição profissional, elas acabam sendo vistas como menos preparadas, o que não corresponde à realidade.

Uma sucessão não é apenas uma troca de bastão, mas também uma transição de cultura

Paralelamente, o escritório Ivan Endo Advocacia possui uma trajetória semelhante, ou melhor dizendo, a sócia Rute Endo. Assim como Bumachar, Endo também sucedeu o escritório de seu pai. Formada tanto em direito quanto em administração de empresas, Rute fundou sua própria empresa voltada ao mercado imobiliário, mas nunca deixou de advogar. Após a crise política de 2014, decidiu encerrá-la. Nesse momento, voltou integralmente à advocacia, em um momento delicado na família.

Após o afastamento do pai, uniu suas duas formações e assumiu o escritório. A partir daí se iniciou um processo estruturado de governança e planejamento sucessório, que culminou na reorganização da gestão do escritório. "São perspectivas diferentes que combinadas - o olhar masculino e o feminino - agregam enriquecendo o processo jurídico como um todo" afirma, Endo.

Rute diz que a discussão vai além da questão de gêneros. Agrega a implementação de bons modelos de gestão aos soft skills, habilidades que agregou através de sua própria visão pessoal. Ideia que combina com a visão de Priscila Spadinger.

Ser mulher à frente de uma iniciativa de tecnologia jurídica ainda é exceção

Priscila Spadinger não herdou capital e nem um sobrenome conhecido no mercado, CEO da Aleve Legaltech e idealizadora e fundadora de outras venture builders, associa sua posição a assumir mais riscos para alcançar maiores ganhos. Mulheres foram historicamente treinadas para cuidar, mas não para arriscar ou disputar grandes oportunidades no mercado. "Eu ouvi muito a vida inteira, você não vai dar conta. Você vai casar e não vai dar conta, vai ter filho e não vai dar conta. Quanto mais me disseram isso, mais força eu ganhei, mais super poderes eu ganhei", completa Spadinger.

Muitas mulheres ainda deixam de ocupar certos espaços porque escutam as limitações impostas pelos outros e esquecem de confiar no próprio potencial, segundo a CEO. No entanto, isso vem mudando. Nos últimos cinco anos houve uma transformação cultural importante e hoje vemos mais colaboração entre mulheres com uma rede de apoio mais forte.

"Eu priorizo muito a contratação de mulheres nos times, isso tem que ser ativo mesmo, não dá para ser reativo. A gente tem que entender do privilégio que nos fez chegar em algum lugar para conseguirmos levar outras", disse Priscila.

É preciso reconhecer que a diversidade precisa ser construída de forma intencional. Não acontece de maneira automática. Dentro das empresas, isso significa criar oportunidades reais para mulheres liderarem projetos, participarem de decisões estratégicas e desenvolverem suas carreiras. Também é importante estimular um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para aprender, errar e evoluir. A inovação depende justamente dessa abertura.

A liderança feminina contribui para a substituição do modelo hierárquico e rígido?

Celina Salomão, CEO da ForeLegal, acredita que a liderança feminina contribui para revisitar os modelos tradicionais de gestão e propor estruturas menos verticalizadas, mais horizontalizadas e mais democráticas. Celina analisa que: "A ForeLegal nada mais é do que o projeto de revisão de modelo de gestão dentro de ambientes jurídicos. A tese dela é uma tese muito minha junto com os meus sócios e foi assim que a gente a fundou. Não para aplicar frameworks prontos, mas para pensar em modelos de gestão alinhados a uma nova cultura, uma cultura mais descentralizada e mais humana do ponto de vista de gestão".

Como já mencionado, as soft skills têm papel importante na liderança. Celina defende que são fundamentais para o desenvolvimento pessoal: a capacidade de entender pessoas e a habilidade para mapear as características de cada ambiente organizacional. Isso envolve escuta ativa, percepção das competências individuais, respeito às limitações de cada profissional e capacidade de combinar essas habilidades dentro de um projeto coletivo.

"Às vezes eu tenho essa pauta e eu gosto muito de falar do quanto a 15 ou 20 anos atrás, de repente eu era uma executiva muito masculinizada. Porque a única forma que eu encontrava de ser ouvida dentro desses espaços, dentro de conselhos predominantemente masculinos, era praticamente me tornar um homem do ponto de vista comportamental", pontua.

Estereótipos

"Se você está em uma reunião e fala que precisa sair e ir para casa, pois seu filho abriu a cabeça na escola, você pode perder esse caso. Porque se tiver um cara do outro lado que é seu cliente ele não vai entender", acrescenta Bumachar.

A maternidade é um desses estereótipos, não é um tema simples, mas muito presente. De acordo com Spadinger, muitas mulheres ainda ouvem que, quando tiverem filhos, não conseguirão manter o mesmo ritmo de trabalho ou crescimento profissional. Na prática, sabemos que isso não é verdade. Mulheres conseguem desempenhar múltiplos papéis ao mesmo tempo, mas o mercado ainda carrega certos preconceitos estruturais.

Mesmo quando o escritório ou empresa oferece estrutura e apoio, muitas profissionais têm receio de se afastar por períodos mais longos, como na licença-maternidade, por medo de perder espaço.

Por isso, é fundamental a adoção de políticas de flexibilidade e criação de ambientes que respeitem a realidade da maternidade, sem que isso seja visto como uma limitação profissional. A pressão do mercado muitas vezes vai além da estrutura interna da organização. E isso não afeta apenas as mulheres, muitos homens também enfrentam dificuldades para conciliar vida familiar e trabalho.

Todos esses desafios, no entanto, acabam gerando ainda mais determinação para mulheres se aprimorarem, se provarem e alcançarem mais objetivos. Quanto mais são contestadas, mais as advogadas provam que a questão de gênero é pequena perto da persistência e qualidade do trabalho entregue.

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