Há algo de quase subversivo em reunir advogados — profissionais treinados para a precisão da linguagem técnica, a frieza dos argumentos e a lógica dos contratos — em torno de um romance, de uma biografia, de uma história que não tem nada a ver com jurisprudência nem com contratos. E, no entanto, é exatamente nessa aparente contradição que reside uma das mais potentes ferramentas de desenvolvimento humano que alguns escritórios brasileiros descobriram nos últimos anos: o clube do livro. Não como entretenimento paralelo, mas como espaço deliberado de transformação.
O que começa como uma troca espontânea entre colegas sobre o livro da semana pode se transformar, ao longo do tempo, em algo mais raro e mais valioso: uma cultura organizacional que valoriza a escuta, a empatia, o pensamento crítico e a pluralidade de perspectivas. Escritórios como o Demarest e o Candido Martins Cukier já trilham esse caminho — e os resultados, segundo quem está à frente dessas iniciativas, vão muito além das prateleiras.
"Ler mudou, muda e continuará mudando o mundo" — Virginia Woolf
A origem de um clube do livro dentro de um escritório de advocacia raramente segue um planejamento estratégico formal. Na maioria dos casos, ela nasce de algo mais orgânico: o gosto compartilhado, a curiosidade genuína, a vontade de que o ambiente de trabalho seja também um espaço de crescimento pessoal. O que muda é a forma como essa semente é cultivada — e o quanto a liderança acredita em seu potencial.
No Demarest, um dos maiores escritórios do país, o clube do livro surgiu como desdobramento de uma iniciativa já existente voltada ao público jovem. "O Demarest possui uma iniciativa de jovens denominada D Futuro. Como forma de contribuirmos mais para o repertório dos jovens e tirá-los, ao menos um pouco, do ambiente digital, surgiu a ideia do clube", conta Maria Helena Bragaglia, sócia que está à frente da iniciativa, juntamente com advogados e profissionais da área de Pessoas e Cultura (RH). Após um ano bem-sucedido, o projeto ganhou escala: "Verificando que a adesão foi superbacana, decidimos ampliar o espectro de atuação e envolver o escritório como um todo."
No Candido Martins Cukier, a história é ainda mais antiga — e igualmente espontânea. Fundado em 2010, o escritório começou a construir sua cultura leitora quase por acidente. "Os sócios e advogados começaram a trocar experiências sobre os livros que estavam lendo de uma forma muito natural. Em umas dessas discussões surgiu a ideia de começar um clube do livro", relembra Henrique de Faria Martins, sócio fundador. Hoje, já são 14 anos de história — e de leitura.
"É preciso que a leitura seja um ato de amor" — Paulo Freire
Se há um elemento comum entre os dois modelos, ele não está nos títulos escolhidos nem na periodicidade dos encontros — está no cuidado com que cada iniciativa é conduzida. Um clube do livro que funciona de verdade não se sustenta pela obrigação, mas pelo encantamento. E encantamento, no ambiente corporativo, é resultado direto de quem está à frente do projeto.
No Demarest, existe um núcleo coordenador formado por perfis complementares: uma sócia, a diretora de Pessoas e Cultura e dois advogados. Juntos, eles fazem a curadoria dos títulos, preparam o ambiente para os encontros e soltam, nos 45 dias que antecedem cada reunião, pílulas de conteúdo no intranet do escritório. "Nosso time de marketing prepara uma decoração relacionada ao tema, servimos comidinhas típicas, escolhemos um fundo musical conectado, enfim, tudo é muito artesanal e caprichado", descreve Bragaglia. "Entendemos que as pessoas enxergam valor em todo esse conjunto, se sentem prestigiadas e valorizadas."
No Candido Martins Cukier, a culinária também tem seu papel: os encontros acontecem em cafés da manhã bem servidos, e a atmosfera é deliberadamente leve. "Os encontros precisam ser leves e dinâmicos. Todos são iguais e não têm nenhum chefe nos encontros", defende Henrique de Faria Martins. Essa horizontalidade, segundo ele, é parte essencial da proposta.
"Ler é sonhar pela mão de outrem" — Fernando Pessoa
Dentro de um escritório de advocacia, a escolha dos livros é, em si, uma declaração de intenções. Optar por ficção e biografias em vez de obras técnicas ou de gestão é um gesto simbólico poderoso: significa dizer que o ser humano por trás do profissional também merece atenção. É reconhecer que a empatia, a imaginação e a capacidade de habitar outras perspectivas são competências tão relevantes quanto o domínio da legislação.
No Demarest, entre os títulos já discutidos estão Mudar, Método, A Biblioteca da Meia-Noite e A Bailarina de Auschwitz — obras que tocam em saúde mental, escolhas de vida, resiliência e história. Para a discussão de A Biblioteca da Meia-Noite, o escritório convidou a monja Zentchu, da comunidade Zen Budismo do Brasil. "Com a sua visão budista, ela encantou a todos e trouxe uma perspectiva diferente acerca do que é viver e dos desafios que encontramos pelo caminho. Todos saíram impactados e, certamente, transformados", relata Bragaglia. "Essa é a ideia: transformação pessoal e coletiva."
No Candido Martins Cukier, o repertório é marcado pelos grandes nomes da literatura mundial: Tolstói, García Márquez, Kafka, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Murakami, Saramago. "Priorizamos livros de ficção e tentamos mesclar livros estrangeiros e brasileiros", explica Henrique de Faria Martins. "Todos fora do mundo jurídico e de negócios." Os títulos mais marcantes, segundo ele, foram Lolita e Freedom — obras que provocaram as discussões mais intensas e reveladoras do grupo.
"Um leitor vive mil vidas antes de morrer" — George R.R. Martin
O impacto de um clube do livro não se mede apenas nos momentos dos encontros. Ele se manifesta, muitas vezes de forma sutil, no cotidiano do escritório — nas conversas de corredor, nos almoços, no modo como as pessoas passam a se enxergar. Ler juntos cria uma linguagem comum, um repertório compartilhado, uma espécie de solo fértil para relações mais humanas e colaborativas.
Maria Helena Bragaglia observa essa transformação com clareza no dia a dia do Demarest: "O Clube do Livro circula pelas copas, almoços, baias, happy hour. A fofoca foi perdendo espaço... A turma debate ideias, pergunta sobre o que mais impactou." Ela destaca ainda uma mudança que considera especialmente significativa: "Não raras vezes ocorrem, durante os debates, confissões lindas e emocionantes, o que modifica o olhar sobre aquele colaborador. Mais uma prova concreta do poder transformacional da leitura."
No Candido Martins Cukier, o clube também tem repercussão além das paredes do escritório. "Clientes adoram essa iniciativa. Muitos pedem para participar!", conta Henrique de Faria Martins, que acredita que a leitura contribui para formar profissionais mais sofisticados e interessantes — pessoas capazes de dialogar com profundidade sobre temas que vão muito além do direito. Para ele, ler clássicos "dá um ar de sofisticação sem parecer pomposo."
Como o clube do livro forma lideranças — e por que treinamentos convencionais não chegam lá
Há uma diferença fundamental entre aprender um conteúdo e ser transformado por ele. Treinamentos corporativos entregam informação; a leitura coletiva, quando bem conduzida, provoca algo mais profundo: o encontro do leitor consigo mesmo e com o outro. Nesse sentido, o clube do livro opera em uma dimensão que os formatos tradicionais de desenvolvimento dificilmente alcançam.
Para Bragaglia, o formato coletivo possui virtudes únicas: "Quando o grupo lê e discute o mesmo material, cria-se uma linguagem comum e referências compartilhadas que facilitam a comunicação e a colaboração posteriores." Ela também destaca o efeito nivelador da iniciativa: "A hierarquia organizacional tende a se diluir: um advogado júnior, por exemplo, pode trazer uma interpretação que não ocorreu a um profissional sênior, e vice-versa." E vai além: "A leitura coletiva exercita competências que são difíceis de ensinar diretamente: escuta ativa, capacidade de articular pensamentos de forma clara, tolerância à ambiguidade e conforto com o desacordo respeitoso."
Henrique de Faria Martins aponta para outra dimensão igualmente valiosa — a singularidade de cada leitura. "Acho que a leitura é muito individual. Cada pessoa vai ser tocada de forma diferente pelo livro. E são esses sentimentos que peço que as pessoas tragam nas discussões. É incrível ouvir as percepções de cada um de um mesmo livro. E essa troca de percepções é algo que você não consegue em treinamentos. É mais espontâneo e dinâmico."
Como virar a página: os conselhos de quem já fez
Para escritórios e empresas que desejam criar seu próprio clube do livro, o caminho não precisa ser longo — mas precisa ser consciente. As experiências do Demarest e do Candido Martins Cukier revelam que os ingredientes essenciais não são necessariamente os mais óbvios: não se trata de budget, nem de tecnologia, mas de pessoas certas, intenção clara e leveza na condução.
Maria Helena Bragaglia recomenda começar pela escolha do núcleo que liderará o projeto: "O clube do livro é um espaço de ciências humanas e requer, portanto, muita sensibilidade de quem irá conduzi-lo." Ela também lista orientações práticas: definir objetivos, estabelecer periodicidade realista, optar pelo formato presencial sempre que possível e, sobretudo, "estruturar um ambiente seguro — para que as discussões sejam produtivas, os participantes precisam se sentir à vontade para expressar opiniões, inclusive discordâncias."
Henrique de Faria Martins sintetiza em uma fórmula direta: "Comece de forma pequena e seja democrático na escolha de livros." E lembra que, acima de tudo, é preciso que alguém acredite — de verdade — no projeto: "Precisa ter uma pessoa com autonomia que vai comprar esse projeto e ser incansável na sua implementação."
Na era digital, da sede por dopamina e dos prazeres efêmeros, escolher a leitura como passatempo já é, por si só, um ato de resistência. Mas escolhê-la como instrumento de formação de profissionais é um ato revolucionário.
"Livros não mudam o mundo. Quem muda o mundo são as pessoas. Os livros apenas mudam as pessoas." — Mário Quintana

