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Campanha ANÁLISE: DESPENDURA

Que tal uma comemoração solidária no Dia do Advogado? Ajude um restaurante

7 de August de 2020 17h28

Comer e beber de graça, uma vez por ano, faz parte do calendário dos estudantes de Direito no Brasil todo. Pendurar a conta em um bar ou restaurante, no "Dia do Advogado", é uma tradição que vem de longe, aliás. Mas, a depender da época, gera mais ou menos polêmica ou até mesmo discussões acaloradas. Talvez por isso, poucos advogados se sentem à vontade em admitir a transgressão. O que importa na verdade é que a farra, que fez a alegria de muita gente nos bons tempos de estudante, pode ser assumida neste ano, de pandemia e crise, por meio de uma atitude solidária.

Essa é a intenção da Análise Editorial ao lançar, hoje, a campanha "Despendura". A ideia é chamar cada advogado, de todo canto do Brasil, a lembrar do seu restaurante ou bar dos tempos de estudante. Procurar saber se o estabelecimento está entre aqueles milhares que enfrentam dificuldade, neste momento delicado, e ajuda-lo a manter as portas abertas. A inspiração partiu da iniciativa de um grupo de professores e ex-alunos da faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), do célebre Largo de São Francisco. Com um movimento que usou o mesmo mote, "Despendura", o grupo vem ajudando a manter vivo o tradicional restaurante Itamarati, vizinho às Arcadas, em São Paulo.

Para os egressos da São Francisco, o Itamarati, com mais de 60 anos de atividade, é praticamente uma extensão da faculdade, como lembra o advogado Batuira Rogerio Meneghesso Lino, formado nos anos 1970. Ele faz parte do grupo que encabeçou o movimento em prol do Itamarati. "Esse é um país que, infelizmente, não dá valor a essas instituições. Nós do Largo daremos sempre", afirma Lino. Na prática, o grupo ajudou a sócia administradora do restaurante, Marli Avanzzo, a obter um período de carência para o pagamento do aluguel do imóvel. E, agora, para este 11 de agosto, está contribuindo para que a empresária venda em torno de mil kits de bolinhos de bacalhau e empadas, que serão entregues no "Dia do Advogado".

O dinheiro levantado será suficiente para Marli quitar um empréstimo. Novas ações do grupo deverão contribuir para a reabertura do restaurante quando o movimento de professores, advogados e estudantes voltar à região central da cidade. Sem atendimento presencial por enquanto, a instituição sobrevive graças à sua força junto ao público que encontra nela mais do que um dos cardápios mais extensos e variados da cidade. É o olhar solidário de quem resgata ali uma parte da vida, as lembranças de grandes encontros, os muitos debates travados para definir os rumos do país, os almoços e jantares em meio à correria do trabalho e até mesmo as penduras e farras da juventude.

Ao conhecer melhor essa história, nos perguntamos: "Quantos ‘Itamaratis’ será que existem por esse Brasil afora?" A rigor, no entorno de todo campus universitário há bares e restaurantes. É inegável que eles fazem parte da vida estudantil. No caso dos cursos de Direito, há ainda o advento do pendura. A pergunta seguinte veio naturalmente: "E se nós propuséssemos aos advogados de todo o Brasil uma comemoração solidária, neste 11 de agosto? Tipo: você sabe como anda o restaurante dos seus tempos de estudante? Aquele onde você e seus amigos iam, por exemplo, para fazer o pendura? Que tal, ajuda-lo, se ele estiver enfrentando dificuldades?", conta Silvana Quaglio, diretora-presidente da Análise Editorial e publisher das publicações da editora. A equipe rapidamente comprou a sugestão. Daí à ideia de fazer uma campanha nacional foi um pulo. Enquanto no caso do Itamarati o grupo se organizou por meio do whatsapp, a Análise desenhou sua campanha para os seus canais nas mídias sociais. E estimula todos os advogados do Brasil a adotar um restaurante.

Só no estado de São Paulo, cerca de 50 mil bares e restaurantes foram fechados desde o mês de abril, segundo dados da ABRASEL-SP, uma das entidades que congrega os estabelecimentos do setor. Na capital paulista, a estimativa é de que 12 mil estabelecimentos do ramo já fecharam em razão dos efeitos da pandemia. Em âmbito nacional o estrago também é imenso. Mesmo com o lançamento de programas emergenciais pelos governos federal e estaduais, a Associação Nacional de Restaurantes (ANR) estima que quatro em cada dez empresas de alimentação vão declarar falência até o fim deste ano.

Não há dúvida que a Covid-19 provocou mudanças no funcionamento e nas rotinas de trabalho de muitos segmentos, e até mesmo na forma de as pessoas se relacionarem. Algumas dessas mudanças poderão ser permanentes. O olhar mais solidário e empático para as necessidades dos outros, dentro e fora do ambiente dos negócios, é uma das alterações que se espera tenham vindo para ficar. E é dentro desse espírito que a Análise Editorial propõe o "Despendura". Vamos lá! Aproveite o "Dia do Advogado" para mobilizar os amigos a apoiar um estabelecimento que esteja batalhando para se manter em pé em meio à turbulência.

Um pouco da história

O início da tradição do pendura não está bem descrito. Mas sabe-se que foi o prestígio da profissão de advogado que suscitou o embrião da prática. Vejamos, primeiro, a razão da data. No dia 11 de agosto comemora-se o "Dia do Advogado", em alusão à data em que foram criados os dois primeiros cursos de Direito no Brasil, em 1827, no Brasil Império. Um deles, em São Paulo, no largo de São Francisco. O outro, em Olinda, Pernambuco. Ou seja, o pendura é a forma daqueles que se tornarão advogados festejarem antecipadamente o seu dia. Sabe-se também que não é uma prática nova. Vem de, pelo menos, o início do século passado. E teria começado como uma espécie de ação de marketing dos donos de restaurantes.

Na época, e até um tempo não muito distante, estudar Direito promovia distinção imediata. Primeiro, porque apenas as famílias abastadas podiam arcar com o custo de manter um filho, ou uma filha - ainda que fossem bem poucas as mulheres que chegavam à universidade - estudando por tantos anos. Depois, porque advogados formavam a elite do funcionalismo público e da política nacional. Ou seja, se não eram de família rica, tinham futuro bastante promissor. Foi pensando nisso que donos de restaurantes tradicionais começaram a convidar estudantes de Direito para comemorar o 11 de agosto em seus estabelecimentos, sem pagar nada. Tudo por conta da casa. Um investimento anual para a fidelização da freguesia, além do prestígio que os brilhantes oradores e a ruidosa juventude costumavam levar aos estabelecimentos.

Ocorre que, ao mesmo tempo em que o número de cursos de Direito foi se multiplicando no Brasil, outras profissões surgiram, ocupando espaço importante na construção do futuro da nação. Com o passar do tempo, bares e restaurantes não viram mais vantagem em custear a festa dos estudantes de Direito e deixaram de convidá-los. Começou a surgir, então, a tradição de os estudantes se convidarem a comer e beber de graça, no estabelecimento que escolhessem, todo dia 11 de agosto. Mas não sem respeitar um protocolo. De acordo com advogados mais antigos, o grupo do pendura deveria ter um orador. Além de um discurso bem formulado sobre os rumos do país, o orador deveria anunciar que aquela conta não seria paga naquele momento; ficaria, portanto, pendurada. Mas o discurso deveria apresentar também um compromisso: a conta seria paga quando os estudantes se tornassem advogados.

A emoção da transgressão passou a fazer parte da tradição, e de uns bons anos para cá, a ação será mais bem-sucedida quanto mais perto da delegacia ela terminar. É claro que, passado um século, o pendura sofreu atualizações. Alguns estabelecimentos fecham as portas na data, outros aceitam negociar descontos, e há, ainda, os que oferecem vantagens ou agrados aos futuros advogados, para manter a clientela. Acertar um acordo prévio também entrou para o leque de opções. A advogada Amira Chammas conta que em agosto de 1994 vestiu sua capa da coragem, mas não sem um combinado anterior. "Resolvi me arriscar nesse perigoso movimento revolucionário estudantil, mas a cautela me levou a consultar um lugar que eu frequentava, para combinar de marcar um jantar à ‘base do pendura’. O gerente, obviamente, aceitou a proposta, restringiu o cardápio e cobrou as bebidas e a gorjeta dos garçons. Uma pendura agendada e civilizada!", diz Amira.

Considerando o cenário atual, o despendura nos parece um movimento muito próprio. Ainda mais considerando todas as emoções que, civilizadamente ou não, os estudantes do curso mais tradicional do Brasil já viveram.

SERVIÇO:

Para encomendar quitutes do ITAMARATI, consulte o Instagram do restaurante: @Itamarati_rest

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