O Brasil bateu mais uma vez o recorde de pedidos de Recuperação Judicial (RJ) no primeiro trimestre de 2026. Segundo o Monitor RGF de Recuperação Judicial, o primeiro trimestre deste ano registrou um total de 5.931 pedidos, atingindo o maior valor da série histórica do indicador, que foi criado em 2023. Confira o comportamento desse indicador ao longo dos anos no gráfico abaixo:
Esse crescimento, na visão do sócio e fundador da Ipê Avaliações, Fábio Murad, deriva de um cenário macroeconômico desfavorável, o qual combina pressões financeiras que impactam de forma direta a capacidade de pagamento das organizações. Para o economista existem alguns fatores que são intrínsecos a esse cenário, como:
- Taxas de juros elevadas: elas são responsáveis pelo aumento do custo do crédito e reduzem a capacidade de refinanciamento de dívidas;
- Restrição de crédito: isso torna o acesso a novos financiamentos mais seletivo;
- Inflação persistente: esse cenário pressiona os custos operacionais e encurta as margens de lucro;
- Cenário exterior: com a alta nos preços das commodities e a volatilidade cambial, há um aumento de custos que pressiona o fluxo de caixa das empresas.
Somado a esse panorama, o CEO da MA7 Negócios, André Matos, avalia que o recorde atual não representa um evento isolado. Para o economista, o índice atual configura o desfecho de um efeito dominó iniciado entre 2023 e 2024, período marcado por crises no grande varejo e por uma escalada dos juros que esgotou a liquidez do mercado. Diante disso, a situação atual exige ainda mais atenção dos analistas do que outros momentos de crise da economia nacional.
"O que torna este momento mais complexo do que outros picos históricos é que hoje o remédio jurídico atinge empresas operacionalmente saudáveis, mas sufocadas pelo custo do dinheiro e pela rigidez dos bancos", complementa Matos.
Marcos econômicos
Dentro de qualquer série histórica, eventos específicos justificam as oscilações e geram anomalias no comportamento do mercado. No panorama das recuperações judiciais a lógica se repete. Tanto é que Fábio Murad ao analisar o histórico recente, relembra que o ano de 2022 foi marcado por ajustes fiscais severos e por uma política monetária apertada, fatores que elevaram os juros básicos e sufocaram as dívidas corporativas.
Em continuidade, o economista destaca que o ano de 2023 trouxe choques nas commodities e a valorização do dólar, afetando diretamente as companhias com passivos atrelados à moeda estrangeira. Mais recentemente, os desdobramentos dos últimos dois anos consolidaram essa tendência de alta.
"Entre 2024 e 2025, o crédito mais restritivo e a inflação acima da meta afetaram principalmente as pequenas e médias empresas, além de setores mais vulneráveis. Esses marcos demonstram que o recorde atual reflete uma escalada contínua de vulnerabilidades estruturais", completa Murad.
Fatores de picos passados
Em 2016, houve 1.863 pedidos de recuperação judicial, de acordo com o Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações. Se comparado aos números registrados no primeiro trimestre de 2026 pela RGF, esse é um número irrisório; no entanto, para André Matos, na época esse valor já era considerado um pico preocupante, mas nada comparado ao cenário atual.
"Diferente do pico histórico de 2016, que foi reflexo de uma recessão puramente macroeconômica, o recorde atual assusta porque atinge empresas que são operacionalmente viáveis, mas que foram estranguladas pela estrutura de capital", analisa Matos.
Além do cenário macroeconômico, o economista também considera que a Nova Lei de Falências tornou o processo mais previsível e facilitado. Na visão de Matos, essa mudança encorajou as companhias a buscarem o remédio jurídico mais cedo, o que acabou inflacionando os números da economia nacional.
Horizonte preocupante
Refletindo essa tendência, o Indicador de Inadimplência das Empresas da Serasa Experian mostra que o ano de 2025 terminou com 8,9 milhões de empresas inadimplentes em todo o território brasileiro. Dessa forma, o índice geral manteve o maior patamar da série histórica do indicador. Ao analisar esses dados, André Matos acredita que o mercado ainda não atingiu o topo da curva de insolvência.
"O pipeline para os próximos meses continua em ascensão, e o mercado só verá um alívio real quando a torneira do crédito voltar a abrir com condições viáveis de rolagem de dívida", prevê Matos.
Fábio Murad vai ainda mais longe em sua análise. Para ele os indicadores macroeconômicos desfavoráveis, como juros altos, crédito seletivo e pressão inflacionária, são os principais fatores que puxam esse índice para uma ascensão contínua no futuro próximo. "A estabilização só deve ocorrer quando houver relaxamento consistente das condições de crédito, queda de juros ou melhoria significativa no fluxo de caixa corporativo", conclui Murad.

