O ambiente digital tornou-se um meio essencial para as empresas manterem contato direto com o público. Essa presença permite que as organizações superem limites geográficos na captação de clientes e facilitem a fidelização desses consumidores. No entanto, a exposição digital também deixa as instituições vulneráveis a ataques cibernéticos cada vez mais rápidos e precisos.
É o que demonstra o Relatório Global de Ameaças 2026 da CrowdStrike, empresa de segurança cibernética. Segundo o estudo, o tempo médio para o invasor se mover na rede (chamado de "breakout time") caiu para apenas 29 minutos em 2025. Além disso, a pesquisa indica que as ameaças cibernéticas que exploram vulnerabilidades de software ou hardware desconhecidas pelo desenvolvedor e usuário, também conhecidos como Dia Zero, cresceram 42% em comparação ao levantamento anterior.
Diante deste cenário, as empresas encontram-se em uma encruzilhada sobre como manter a presença digital e, simultaneamente, garantir a proteção contra tais riscos. Nesse contexto, surge a importância de contar com um departamento jurídico alinhado às demais áreas para gerenciar crises de forma estratégica e eficiente, mas apenas isso é suficiente?
Blindagem para os tempos atuais
Em um panorama no qual os ataques cibernéticos tornam-se cada vez mais estruturados, a manutenção de uma arquitetura segura representa um grande desafio. Por esse motivo, as ações técnicas devem ser automatizadas para resistir à agilidade dos invasores modernos. Rodrigo Gazola, CEO da ADDEE, empresa de soluções de TI, indica as melhores práticas para blindar as estruturas organizacionais:
- Proteção de identidade: Implementação de autenticação multifator, análise de comportamento de login e bloqueio automático de acessos suspeitos, com foco em contas privilegiadas.
- Proteção de endpoints: Detecção e bloqueio automático de comportamentos maliciosos, utilizando análises baseadas em padrões de atividade e não apenas em assinaturas de vírus.
- Controle de superfície de ataque: Automação dos processos de identificação e teste de falhas de software, além de uma gestão rigorosa de vulnerabilidades para reduzir a exposição da rede.
"Essas três frentes atacam o problema na origem. Se a empresa depende apenas de resposta, já está reagindo tarde demais para um cenário de 29 minutos. Mais do que automatizar a resposta, o foco precisa ser a automação da proteção e do controle", complementa Gazola.
Checklist de resposta imediata
Em uma era na qual um invasor pode comprometer o sistema de uma empresa em menos de meia hora, torna-se imperativo revisar o fluxo tradicional de resposta a ameaças cibernéticas. Afinal, processos lentos nesses casos podem deixar de ser uma cautela para se tornarem negligência de governança.
Nesse cenário, surge a necessidade de um "checklist de resposta imediata". Por meio dessa estratégia, o encarregado de dados, também conhecido como DPO (Data Protection Officer), consegue reunir evidências de conformidade mesmo durante o ataque. Essa documentação viabiliza a defesa jurídica da organização contra eventuais prejuízos decorrentes da invasão.
Tiago Zanicotti, sócio-fundador do Neiva de Lima, Zanicotti — Advogados, aponta que o checklist deve garantir o atendimento a três frentes em paralelo:
- Registro de decisões tomadas: anotação de data, hora e responsável por cada novo rumo decidido.
- Rastreabilidade das ações técnicas adotadas: logs de sistema, evidências de contenção e comunicações internas.
- Comprovação de aderência: provas de que as decisões respeitam o Plano de Resposta a Incidentes de Segurança da organização.
"Sem esses registros, a empresa até resolve o incidente, mas perde a capacidade de provar diligência perante a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), as demais autoridades e os titulares de dados", destaca Zanicotti.
O paradoxo da transparência
Infelizmente, nem sempre é possível evitar os ataques, restando às empresas atuar na contenção dos efeitos prejudiciais sobre a reputação da marca no mercado. Nesse cenário, torna-se essencial identificar quais informações devem ser reportadas imediatamente e quais devem aguardar uma perícia técnica antes da divulgação ao mercado.
"O maior risco reputacional não reside no incidente em si, mas na tentativa de controle narrativo sem base técnica. Divulgar informações cedo demais gera retratações, enquanto divulgar tarde demais alimenta a desconfiança", declara Zanicotti.
O sócio-fundador do Neiva de Lima, Zanicotti — Advogados observa que a transparência representa um valor inegociável para muitas empresas, mas ressalta que não se deve confundir valor com necessidade. Por essa razão, os departamentos jurídico, de relações públicas e de assessoria de imprensa devem atuar em conjunto com as áreas de TI e Segurança da Informação. Essa integração permite identificar o momento ideal para comunicar o incidente, sua extensão e o nível de detalhamento adequado das informações.
"Em regra, se o incidente é relevante e claro, sua existência deve ser divulgada o quanto antes. Por outro lado, a comunicação sobre a extensão e os potenciais danos deve ocorrer somente após uma compreensão sólida do evento e após a cessação ou mitigação do problema", completa Zanicotti.
Os cuidados para o "Dia Zero"
Um dos principais métodos de ataque que podem gerar crises perante o mercado é o "Dia Zero". Basicamente, essa ameaça consiste na exploração de falhas ou brechas desconhecidas na segurança de softwares e hardwares para atacar a estrutura organizacional. Diante desse risco, as empresas precisam contar com um plano de resposta rápida focado na identificação do invasor e no isolamento ágil do segmento da rede atingido para mitigar os prejuízos.
Na visão de Alan Campos Thomaz, especialista em direito digital e sócio do Campos Thomaz Advogados, o tempo de isolamento é o fator que reduz o dano e influencia o cálculo de responsabilidade jurídica posteriormente.
A identificação do invasor, por sua vez, mostra-se fundamental para a investigação forense e para a comunicação obrigatória à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). No entanto, como esse processo pode levar dias ou semanas, dados e recursos financeiros podem ser desviados nesse intervalo. O sócio, que possui experiência em casos de invasões cibernéticas, indica o melhor caminho estratégico a seguir.
"Em incidentes recentes nos quais atuei, envolvendo desvios via Pix, abuso de integrações bancárias e exposição de dados pessoais, ficou claro que o tempo de contenção determina o sucesso das medidas de mitigação de danos", ressalta Thomaz.
Matriz de decisão
Devido a essa janela de resposta cada vez menor, as empresas precisam estruturar matrizes de decisão que envolvam a alta gestão para permitir respostas rápidas e concisas diante de cenários de ataques cibernéticos. Dessa forma, é possível autorizar que a área de TI tome medidas drásticas — como a interrupção de sistemas — sem a necessidade de uma reunião de emergência com o departamento jurídico.
Para Tiago Zanicotti, a matriz de decisão deve estar previamente definida e aprovada pela alta gestão dentro do Plano de Resposta a Incidentes de Segurança. A clareza prévia sobre os protocolos evita hesitações que poderiam ampliar o impacto da invasão.
"Em cenário de crise, não há espaço para decisões improvisadas. O plano deve autorizar previamente medidas críticas, inclusive sem aprovação imediata do jurídico ou da diretoria, estabelecendo critérios objetivos de acionamento e responsabilidade concentrada em um comitê — opção mais recomendada — ou em um responsável designado", alerta Zanicotti.

