Dalton Pastore às vezes fica nas catracas da ESPM de manhã, quando os alunos chegam, ou à noite, quando entra a turma das 19h30. Repara nas roupas dos estudantes de Direito. A bermuda e o tênis vão dando lugar à calça social e à camisa branca. "É engraçado ver a roupa deles mudando", diz.
A mudança tem explicação na grade. O curso de Direito da ESPM tem 4.710 horas, além das oficinas e atividades extras, com tempo integral nos três primeiros anos e estágio a partir do quarto, quando as aulas passam para a noite. Cada turma tem um escritório padrinho, e toda semana um sócio diferente vai à escola dar aula. Na primeira turma, que já foi para o noturno, de 29 alunos, só dois ainda não estagiavam no fim de maio.
Quem desenhou o curso é publicitário. Pastore presidia a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (ABAP) quando o mensalão pôs três agências no centro do escândalo e um acórdão do Tribunal de Contas da União ameaçou proibir o setor de subcontratar serviços. Passou a ir a Brasília quase toda semana, trabalhou pela aprovação da lei que hoje regula a contratação de agências pelo poder público e acabou numa comissão da Ordem dos Advogados do Brasil como o único integrante sem diploma de Direito.
Na conversa, ele conta história como quem prepara uma campanha, com o nome do cliente, o endereço e a hora. Lembra que o museu onde a escola nasceu ficava na Rua Sete de Abril e que o vestibular deste ano termina às três da tarde para a obra começar às quatro.
A entrevista foi concedida a Alexandre Secco, editor e sócio da Análise Editorial.
Dalton Pastore é presidente da ESPM desde 2017. Formou-se em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, pela Universidade Anhembi Morumbi, em 1974. Presidiu a Associação Brasileira de Agências de Publicidade (ABAP) em três mandatos, entre 2003 e 2009, o IV Congresso Brasileiro da Indústria da Comunicação (2008), o Fórum Nacional das Entidades Civis de Comunicação (Forcom) e a segunda câmara do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). Integrou por cerca de dois anos uma comissão consultiva do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. A ESPM tem sede em São Paulo e é uma associação sem fins lucrativos, formalizada em 1951.
Alexandre Secco: A ESPM, escola conhecida no país inteiro por formar publicitários e profissionais de marketing, resolveu abrir um curso de Direito num mercado que já tem mais de 1.900 faculdades. O que deu na cabeça de um publicitário para enfrentar esse desafio?
Dalton Pastore: Acho que foi quase um acidente. Na minha vida de publicitário eu me envolvi muito com entidades de classe: fui presidente da Associação Brasileira de Agências de Publicidade em três mandatos, do quarto congresso da indústria da comunicação, do Fórum Nacional das Entidades Civis de Comunicação e da segunda câmara do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária. Tive uma vida associativa muito grande.
Pergunta: Onde está o acidente que o levou para o Direito?
Dalton Pastore: Tive, de um lado, o azar, e de outro a sorte, de ser presidente da ABAP quando estourou o mensalão¹, que envolveu relações entre o poder executivo, empresas estatais e três agências de publicidade.
Pergunta: O escândalo envolvia três agências. O que ele provocou no resto do mercado?
Dalton Pastore: Criou um turbilhão, uma situação dramática, com o Tribunal de Contas da União chegando a um acórdão que ia proibir agências de subcontratar serviços. Ou seja, ia acabar com a profissão, porque agência é agência justamente porque agencia serviços.
Pergunta: Como se briga com um acórdão do TCU?
Dalton Pastore: Comecei a ir para Brasília praticamente toda semana: Tribunal de Contas da União, Supremo Tribunal Federal, Congresso, falando com deputados e senadores, lutando para manter o negócio de pé. Isso nunca tinha acontecido comigo antes, eu nunca tinha trabalhado para político, estatal ou governo.
Pergunta: No que deram tantas idas a Brasília?
Dalton Pastore: Tudo isso culminou na Lei 12.232², apresentada pelo José Eduardo Cardozo e em vigor até hoje, pela qual eu trabalhei muito para que fosse aprovada. Ela garante o direito da agência de agenciar serviços, de receber bonificação dos veículos e de cobrar os veículos, e regularizou todo o tecido sobre o qual estava montado o negócio das agências e dos meios de comunicação.
Pergunta: Até aqui, a história é de um publicitário em Brasília. Onde entra a advocacia?
Dalton Pastore: Tive essa experiência jurídica enorme e acidental, e, como parte dela, estive muitas vezes na Ordem dos Advogados do Brasil. O presidente da entidade na época, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, me convidou para uma comissão que aconselhava a diretoria sobre causas para as quais ainda não havia jurisprudência. O presidente da comissão era o Carlos Ayres Britto³.
Pergunta: Um publicitário no meio de advogados…
Dalton Pastore: Participei como único não advogado, numa comissão de mais de 20 pessoas, e ele dizia: você tem experiência do setor de marketing e comunicação. Fiquei uns dois anos, envolvido em diversos processos, fui relator de alguns.
Pergunta: Como essa comissão virou, anos depois, um curso de Direito?
Dalton Pastore: Me mudei para os Estados Unidos, e quando decidi aceitar o convite para assumir a ESPM, lembrei dessa experiência, do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, das leis que regulam a comunicação, as mídias, a liberdade de expressão. E pensei: não tem advogado fazendo isso.
Pergunta: Que tipo de caso você tinha em mente?
Dalton Pastore: Com o crescimento da internet e das redes sociais, surgiram questões novas, propriedade intelectual, por exemplo: se antes você tinha um grupo pequeno de pessoas produzindo conteúdo, com propriedade intelectual a defender, esse grupo multiplicou por dez milhões, porque hoje todo mundo produz e é autor. Você tem direito ao esquecimento nas redes sociais, calúnia, um mundo de situações novas para as quais o direito tradicional talvez não estivesse muito preparado.
Pergunta: Um publicitário dizer isso é uma coisa. O que acharam os advogados?
Dalton Pastore: Comecei a conversar com um advogado amigo, perguntei o que ele achava, e ele disse: realmente, na minha faculdade a gente não estudou nada disso, não entendemos nada disso.
Pergunta: Foi só ele?
Dalton Pastore: Fui conversando com um, com outro, e ouvi muito, sem querer deixar aqui crítica a ninguém, que os cursos de Direito são muito tradicionais, continuam sendo o mesmo curso de 30, 40 anos atrás. Hipertradicionais, o que não é totalmente ruim, tem coisa boa e coisa ruim, mas ouvi muito isso. E essa parte de propriedade intelectual, de direitos e obrigações nas redes sociais, é uma mudança dramática numa sociedade que compra, vende, se relaciona, produz e consome notícia online.
Pergunta: Por que uma graduação completa, e não um curso de especialização?
Dalton Pastore: Pensamos primeiro numa pós-graduação, e percebemos que talvez tivesse que ser um pouco antes disso, porque tem coisas que o estudante já precisa conhecer, soft skills, marketing pessoal, noções de outras áreas, para não chegar virgem quando for tratar de assuntos financeiros, por exemplo.
Pergunta: O Brasil não tem falta de faculdade de Direito.
Dalton Pastore: O Brasil tem um monte de curso de Direito, muitos de altíssima qualidade; se você vai fazer um novo curso, precisa ter uma razão, e enxergamos que esse campo todo tinha uma razão. Por isso o curso tem uma carga horária tremenda: precisa ensinar todas as disciplinas clássicas do Direito e ainda acrescentar toda essa parte do direito de uma sociedade conectada.
Pergunta: Quem não quiser saber de rede social nem de propriedade intelectual…
Dalton Pastore: Ele pode sair daqui e falar: vou ser advogado trabalhista, tributarista, criminalista, ou seguir carreira pública, ser juiz. Ele recebe a formação, o pacote de conteúdo completo.
"Muitos já vão direto para o escritório padrinho."
Pergunta: São 4.710 horas, a maior carga horária de um curso de Direito no país⁴. Pelo que entendi, o aluno fica em tempo integral e só pode estagiar no último ano.
Dalton Pastore: A partir do quarto. Primeiro, segundo e terceiro é tempo integral. No quarto ele já pode estagiar, e passa a estudar à noite.
Pergunta: Como o mercado está recebendo a primeira turma, que se forma em 2027?
Dalton Pastore: Está encontrando um mercado muito aberto, até por causa da nossa ideia de ter um escritório padrinho: cada turma tem um escritório padrinho, o que já cria um convívio dos estudantes com todos os sócios daquele escritório. Muitos já vão direto para o escritório padrinho.
Pergunta: Quem são os padrinhos da primeira turma?
Dalton Pastore: Da primeira turma, o Demarest Advogados, da segunda o ASBZ Advogados, da terceira o Machado Meyer Advogados e da quarta o Veirano Advogados⁵. Quatro grandes escritórios que estão presentes aqui toda semana, cada semana vem um sócio diferente: numa semana vem o tributarista, na outra o criminalista, na outra o cível, por exemplo. Cada escritório mantém um convívio grande com as turmas.
Pergunta: É o estágio ao contrário: o sócio é que vai à escola.
Dalton Pastore: E aí já começa a lecionar.
Pergunta: Dá para ver esse convívio nos alunos?
Dalton Pastore: É engraçado, outro dia eu estava na entrada da escola, nas catracas, de manhã, quando eles chegam, e às vezes fico à noite, na hora que chega a turma das 19h30. É engraçado ver a roupa deles mudando: já não é mais bermuda e tênis, já é calça social, camisa branca. Vai incorporando o visual novo.
"A ESPM apaixona."
Pergunta: Quanto tempo o aluno de Direito passa no campus por dia?
Dalton Pastore: O estudante de Direito tem passado mais de sete horas por dia dentro do campus. Primeiro porque a carga horária é maior. Ele já tem uma obrigação maior, mais aulas, mais atividades.
Pergunta: Com uma grade dessas, seria de esperar que ele fosse embora assim que a aula acaba.
Dalton Pastore: Parece que é o contrário, parece que ele quer ficar. Eles gostam de ficar na escola. As aulas começam segunda-feira e já tem um monte de estudante lá. Eu brinco com eles: estava com saudade, né?
Pergunta: Saudade não é o que se costuma sentir da faculdade.
Dalton Pastore: Têm saudade da escola, gostam da escola, por alguma razão que não tem nada a ver comigo, porque não começou com a minha chegada, sempre foi assim. A ESPM apaixona. Em quase dez anos aqui, nunca encontrei alguém que me dissesse estudei na ESPM e não gostei. Só ouço o contrário, e também, graças a Deus, nunca ouvi um pai dizer meu filho se formou na ESPM e não arrumou emprego, não progrediu.
Pergunta: O campus parece estar sempre em obra.
Dalton Pastore: A gente faz obras de melhoria de infraestrutura todos os meses de julho e todos os meses de dezembro e janeiro. Este ano vamos antecipar o vestibular, que costuma ser em torno de 5 ou 10 de dezembro, para o dia 29 de novembro: termina às três da tarde e a obra já pode começar às quatro.
Pergunta: O aluno percebe a diferença?
Dalton Pastore: Todo ano, nas férias, tem obra, o estudante chega e encontra uma escola diferente. É comum ver post no Instagram e no TikTok do tipo vou voltar pra escola semana que vem, vamos ver a novidade. E vai ter novidade.
Pergunta: Por que tanto empenho?
Dalton Pastore: Primeiro porque eu quero que o estudante tenha motivação para voltar, e segundo porque, quanto mais tempo ele fica na escola, mais ele se prepara.
Pergunta: O que o aluno ganha ficando no campus fora do horário de aula?
Dalton Pastore: Ele pode estar brincando, mas está conversando com colega de outro curso, indo a um estúdio tocar violão ou guitarra com outros alunos, formando uma banda, se envolvendo numa agência estudantil, na bateria, participando da vida universitária. O concorrente é o bar, com cerveja, maconha, conversa jogada fora. Eu tenho que manter o estudante o máximo possível dentro do campus.
Pergunta: Há uma "sala de situação" em construção, em que um professor poderá reunir alunos de vários cursos para resolver um problema real. Onde entram os alunos de Direito?
Dalton Pastore: Estão envolvidos. Eles vão viver a experiência de uma crise de verdade. Está tudo montado na minha cabeça, fazer acontecer é difícil, mas é um plano que vai ser construído.
Pergunta: Em que pé está?
Dalton Pastore: O espaço já existe, e a sala vai ser construída: uma mesa redonda com uns 20, 25 lugares, ou uma parede inteira com mapa-múndi. Depois vamos ter que lutar para encaixar tudo isso dentro da grade.
Pergunta: Por que a grade é uma briga?
Dalton Pastore: Temos as diretrizes curriculares nacionais do curso, as disciplinas obrigatórias, que chamamos de majors. O Ministério da Educação diz quais disciplinas o curso precisa ter, e a gente acrescenta outras, do primeiro semestre até a formatura.
Pergunta: Acrescenta o quê?
Dalton Pastore: Nos três primeiros anos o aluno de Direito tem o Lifelab, disciplinas de desenvolvimento pessoal, criatividade, capacidade de ouvir, de aprender, de trabalhar em grupo, e também oficinas.
Pergunta: Quando ele passa para a noite, no quarto ano, muda o quê?
Dalton Pastore: Quando ele vai para a noite, para o estágio, o Lifelab desaparece, porque ele já está vivendo aquilo na prática, e as oficinas também acabam, porque ele já está numa oficina real. Ele continua com as majors, mas no lugar das oficinas e do Lifelab entram as minors, disciplinas de interesse da carreira que ele está seguindo naquele momento.
"A peça jurídica é uma peça de convencimento."
Pergunta: Tenho a impressão de que a advocacia, e o setor de serviços em geral, trata o marketing de forma rasa, como se fosse postar em rede social, e não como peça de construção de marca, de posicionamento e de desenvolvimento do negócio. A ESPM consegue pôr outra ideia na cabeça de um estudante de Direito?
Dalton Pastore: Essa escola respira marketing o tempo todo, as oficinas têm marketing, os trabalhos em grupo têm marketing. A nossa situação de mercado, às vezes, é o contrário disso: a gente não é só marketing, também estudamos finanças, bolsa de valores, design. Mas a escola respira marketing o tempo todo. Independentemente da matriz acadêmica, o estudante de Direito está inserido num ambiente que respira marketing.
Pergunta: O que um estudante de Direito precisa entender por marketing?
Dalton Pastore: Tem dois campos distintos que o estudante da ESPM precisa cobrir. Um é o seguinte: no trabalho dele no dia a dia, a peça jurídica é uma peça de convencimento, ele precisa saber contar histórias. A peça jurídica não pode mais ser um texto de cem páginas, cheio de citação em latim que o juiz já viu vinte vezes.
Pergunta: No lugar do latim, entra o quê?
Dalton Pastore: Ela precisa ter storytelling: qual história vou contar, de onde eu começo para montar essa história, qual a melhor forma de apresentá-la, num texto, num vídeo, num PowerPoint.
Pergunta: O segundo campo?
Dalton Pastore: O outro lado é o marketing pessoal dele: ele vai ser advogado num país que tem um milhão e meio de advogados, precisa ter marketing pessoal, e isso está dentro do nosso Lifelab. E tem ainda o marketing do escritório em que ele for trabalhar.
Pergunta: Se você tivesse que definir marketing numa palavra, qual seria?
Dalton Pastore: É crescimento. Quem pensa em crescimento é quem faz marketing. Se numa organização ninguém está pensando em marketing, ainda que de forma intuitiva, ela não vai crescer.
Pergunta: O empresário que cresce sem nunca ter estudado marketing, então…
Dalton Pastore: Já está fazendo marketing. Pode não ter as ferramentas, pode não ter conhecimento, pode nem perceber. O Brasil está cheio de empreendedores que fizeram grandes empresas com cases extraordinários de marketing sem saber exatamente o que estavam fazendo, mas fizeram.
"A solução não é estudar menos."
Pergunta: O mercado jurídico é apontado como um dos mais sujeitos ao impacto da inteligência artificial, e a gente já está vendo isso. Como uma faculdade de Direito trata desse assunto?
Dalton Pastore: A gente discute muito inteligência artificial aqui, o tempo todo, dentro da escola, com o corpo docente, com pesquisadores, com gente de fora. Que certeza a gente pode ter hoje? Até onde a inteligência artificial vai chegar, eu não sei, porque é a primeira ferramenta na história da humanidade que aprende.
Pergunta: Toda tecnologia nova parece, na sua época, a maior da história.
Dalton Pastore: Quando o homem inventou a roda, ela não aprendeu nada, cumpriu a função para a qual foi criada. Quando descobriu a alavanca, ela mudou o mundo, mas continuou sendo uma alavanca. A inteligência artificial aprende, evolui sozinha. Aonde ela vai chegar, eu não sei.
Pergunta: Se não dá para saber aonde ela vai, o que dá para decidir hoje?
Dalton Pastore: A primeira certeza que tenho é que a solução não é estudar menos. Ninguém vai me convencer de que, porque a inteligência artificial vai fazer tudo, seu filho não precisa ir à escola. Não faz sentido.
Pergunta: A segunda certeza?
Dalton Pastore: A segunda coisa é que a gente tem um compromisso com a vida desses meninos e meninas. Eles chegam aqui com 17, 18 anos e saem formados com 22, 23, e não vão fazer uma segunda faculdade, ninguém faz. Há um compromisso com a carreira, com a empregabilidade, com o sucesso profissional de cada um, porque é o sucesso profissional do estudante que garante a perenidade da ESPM. O nosso índice de empregabilidade ultrapassa 92% dos formados.
Pergunta: Como está esse número no Direito?
Dalton Pastore: De Direito ainda não tenho, vamos apurar a partir da próxima turma. Na turma atual, até o fim de maio, de 24 alunos só tinha dois que ainda não estavam estagiando.
Pergunta: Por que não redesenhar o curso inteiro em torno da inteligência artificial?
Dalton Pastore: Esse nível de responsabilidade não permite pegar cada nova tendência e transformar todo o aprendizado nessa direção, e nem o Ministério da Educação permite, felizmente. Há dez anos, se a gente tivesse seguido todos os especialistas que diziam para não estudar mais nada, só programação, e tivesse parado de ensinar filosofia, política, línguas, estatística e matemática, teríamos formado uma mão de obra inteira obsoleta. Se a gente tivesse seguido, há cinco anos, a onda de que era tudo metaverso, será que o estudante saberia hoje como progredir nesse mundo?
Pergunta: As empresas cobram da escola a formação do profissional de que elas precisam agora.
Dalton Pastore: Às vezes alguém me pergunta se a ESPM está preparando os estudantes para as necessidades que as empresas têm hoje, e eu digo que de jeito nenhum: essa necessidade não vai ser a de amanhã, e o estudante vai viver com esse diploma a vida inteira. A gente está preparando para a vida.
"Violão espalhado pela escola."
Pergunta: Numa reta final entre bons candidatos, por que o mercado deveria escolher o aluno da ESPM, e não o da Fundação Getulio Vargas (FGV), da PUC-SP, do Mackenzie ou do Insper?
Dalton Pastore: Todas essas que você citou são excelentes escolas, sérias, corretas, dedicadas ao sucesso do estudante, nenhum comentário negativo. O que eu acho diferente no estudante da ESPM é que ele vai desenvolver mais soft skills.
Pergunta: O termo anda gasto. Para mim, soft skill não é gentileza de elevador, é relacionamento, empatia, saber conduzir uma conversa.
Dalton Pastore: É desenvolvimento de criatividade, é ser desafiado a ver as coisas de um jeito diferente, é se envolver com atividades que ele não conhece: fazer um vídeo, um podcast, entrar numa van de jornalismo e cobrir um evento, entrar num estúdio e tocar um instrumento com outros colegas, criar uma banda dentro da escola.
Pergunta: Isso se vê andando pelo prédio?
Dalton Pastore: Se você entrar aqui e depois entrar numa FGV, por exemplo, que são ótimas, o jeito é muito diferente: salas mais formais, ambiente mais formal. Aqui você vai encontrar violão espalhado pela escola, guitarra, câmera fotográfica, estúdio de som, estúdio de rádio, estúdio de teatro.
Pergunta: Violão no corredor foi decisão de alguém?
Dalton Pastore: Não foi planejado, é a nossa origem. A gente nasceu como escola de propaganda.
Pergunta: Por que o Brasil precisava de uma escola de propaganda?
Dalton Pastore: Nos anos 40, a publicidade começa a estourar como indústria organizada nos Estados Unidos e na Inglaterra, a Madison Avenue que você viu na série⁶. Quatro ou cinco agências americanas vêm para o Brasil acompanhando seus clientes, a Lintas veio acompanhando a Unilever, a J. Walter Thompson veio acompanhando a Ford. Vieram publicitários americanos para comandar essas agências, mas não dava para trazer o staff inteiro dos Estados Unidos, então começaram a contratar gente aqui, que foi aprendendo como funcionava a indústria.
Pergunta: Onde entra a história do museu?
Dalton Pastore: Nesse período, a publicidade era basicamente anúncio de revista e de jornal, com ilustrações lindas, que acabaram chamando a atenção de Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo, que ficava na Rua Sete de Abril. Bardi resolveu fazer uma exposição de artes de anúncio no museu, e ficou surpreso ao ver que ela atraiu mais gente do que uma de Picasso e outros grandes artistas, porque era popular: as pessoas queriam ver a ilustração original da capa do sabonete, do Leite Moça. A exposição fez sucesso e atraiu ainda mais gente para o museu.
Pergunta: De quem foi a ideia da escola?
Dalton Pastore: Um grupo foi até Bardi e perguntou por que não montar uma escola de propaganda. Ele achou a ideia interessante. Foram até Assis Chateaubriand, o grande dono da mídia nacional, que disse: se a propaganda for melhor, os Diários Associados⁷ vão melhor, vou apoiar essa ideia.
Pergunta: Faltava alguém para tocar o projeto.
Dalton Pastore: Quem tomou a frente do projeto foi Rodolfo Lima Martensen, presidente da Lintas e que estava de saída, e resolveu fazer daquilo o projeto de vida dele. Foi ao mercado perguntar a donos de gráfica, de jornal, de rádio, de produtora de áudio, o que o profissional ideal precisaria saber, e foi anotando tudo, até montar uma matriz acadêmica inteira.
Pergunta: O que ele fez com a matriz pronta?
Dalton Pastore: Levou o projeto a Bardi, que disse: isso não é um curso, isso é uma escola, está muito bem organizado. Esse documento está datilografado na nossa biblioteca até hoje. Bardi emprestou uma sala, Chateaubriand comprou as carteiras e pagou os primeiros professores, e assim nasceu a Escola de Propaganda de São Paulo, dentro do próprio museu.
Pergunta: O que ficou daquela sala emprestada na escola de hoje?
Dalton Pastore: Esse DNA de criatividade, esse DNA de informalidade, já veio de lá, eu não inventei nada.
Pergunta: Quando a escola saiu do museu?
Pergunta: store: A escola foi crescendo, passou a ter faturamento, e aí tiraram o Museu do nome. Precisou de mais espaço, e o próprio Bardi disse que estavam atrapalhando o museu. O grupo formou uma associação sem fins lucrativos em 1951 para criar a escola, alugou um andar no mesmo prédio, depois se mudou para a Bexiga, depois para outro lugar, até chegar aqui.
"Vão produzir peças jurídicas mais interessantes e, portanto, mais eficazes."
Pergunta: De volta ao Direito. Onde você vê o aluno da ESPM se destacando na advocacia?
Dalton Pastore: Acho que eles vão ter um pensamento estratégico de negócios, vão poder ser parceiros de negócio dos seus clientes, vão produzir peças jurídicas mais interessantes e, portanto, mais eficazes. Vão ter a capacidade de sentar com o cliente, discutir o negócio, a estratégia, entender o que ele está fazendo e por quê. Sei que isso soa meio padrão, formar um advogado parceiro estratégico do cliente, mas acho que a gente vai conseguir fazer isso de fato.
Pergunta:E o curso, aonde você quer que ele chegue?
Dalton Pastore: Eu gostaria de ter 200 ingressantes por ano. Para isso, a gente precisa formar as primeiras turmas, que precisam passar na Ordem dos Advogados do Brasil, ser reconhecidas nos escritórios onde vão trabalhar, ter sucesso profissional. Isso vai levar uns 8, 10 anos. Eu gostaria que o nosso estudante, ao chegar no mercado, tivesse o reconhecimento que hoje tem o estudante de comunicação da ESPM.
Pergunta: Da ideia até esse advogado reconhecido no mercado, são quase 20 anos.
Pergunta: store: Se a gente conseguir em 20 anos, vai ser um case de grande sucesso.
"Isso aqui não é um trabalho, é uma missão."
Pergunta: Numa instituição sem fins lucrativos, a recompensa não vem em dividendos. O que você gostaria de ouvir, um dia, sobre o curso de Direito?
Dalton Pastore: Gostaria de um dia ouvir: contratei um advogado formado na ESPM, é muito bom. Porque, por orgulho, é o que eu tenho para dar, nem para mim, nem para a diretoria executiva, que recebe rigorosamente dentro da CLT.
Pergunta: Mesmo assim, costuma segurar um executivo?
Dalton Pastore: Eu costumo dizer que isso aqui não é um trabalho, é uma missão. E é tremendamente recompensador.
Pergunta: Entre os programas sociais da escola, há um que você criou pessoalmente, há uns quatro anos. Para quem é?
Dalton Pastore: Para o estudante que está numa escola pública, muito pobre, para quem é difícil sair dali, que não pode pagar faculdade particular e para quem entrar numa pública é difícil, criamos o Jovem Inusitado.
Pergunta: Como funciona?
Dalton Pastore: Um grupo de estudantes vem todo sábado, chega às 7h, a gente dá café da manhã, uniforme, material escolar, aulas de português, matemática, projeto de vida, almoço e lanche da tarde, e eles vão embora às 16h. É inusitado porque, todo sábado, das 7h às 16h, durante seis meses. Depois sai aquela turma e entra outra.
Pergunta: O que fica disso para você?
Dalton Pastore: Você vê na formatura e chora.
Notas de rodapé
¹ O mensalão foi o esquema de pagamentos a parlamentares da base do governo federal revelado em 2005 e julgado pelo Supremo Tribunal Federal na Ação Penal 470, entre 2012 e 2014. Parte do dinheiro circulava por contratos de agências de publicidade com o poder público e com empresas estatais.
² A Lei 12.232, de 29 de abril de 2010, estabelece as normas gerais para licitação e contratação de serviços de publicidade pela administração pública, prestados por intermédio de agências de propaganda. Nasceu de projeto do então deputado federal José Eduardo Cardozo.
³ Marcus Vinicius Furtado Coêlho presidiu o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil de 2013 a 2016. Carlos Ayres Britto foi ministro do Supremo Tribunal Federal de 2003 a 2012 e presidiu a corte em 2012.
⁴ A Resolução CNE/CES nº 5, de 17 de dezembro de 2018, do Conselho Nacional de Educação, instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Direito e fixou em 3.700 horas a sua carga horária referencial. As 5.800 horas da ESPM ficam 57% acima desse patamar.
⁵ Demarest Advogados: sede em São Paulo, fundado em 1948, com 315 advogados. asbz Advogados: sede em São Paulo, fundado em 2011, com 175 advogados. Veirano Advogados: sede no Rio de Janeiro, fundado em 1972, com 305 advogados. Machado Meyer Advogados: sede em São Paulo, fundado em 1972, com 607 advogados.
⁶ Mad Men, série americana exibida entre 2007 e 2015, se passa numa agência de publicidade da Madison Avenue, em Nova York, nos anos 60.
⁷ Os Diários Associados, grupo de comunicação de Assis Chateaubriand, reuniam jornais, revistas, emissoras de rádio e, a partir de 1950, a TV Tupi. Chateaubriand fundou o Museu de Arte de São Paulo com Pietro Maria Bardi em 1947.

