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A matemática revela a elite do contencioso de massa no Brasil

Estudo da Análise Editorial aplica critérios estatísticos aos dados de 243 escritórios e identifica 21 que se destacam pelo tamanho das equipes e das carteiras. Eles representam 8,6% da base e concentram 49,3% dos processos.

3 de Novembro 12h30

1. O desafio: como identificar a elite do contencioso de massa?

Identificar os escritórios dedicados ao contencioso de massa no Brasil parece simples. Bastaria contar o número de processos em carteira e organizar um ranking, do maior para o menor.

Mas a partir de quantos processos um escritório pode ser considerado uma grande operação de contencioso de massa? E como estabelecer esse limite sem escolher arbitrariamente um número?

A Análise Editorial decidiu recorrer à estatística. Em vez de definir previamente uma quantidade mínima de processos, utilizou critérios matemáticos para identificar os escritórios que se destacam simultaneamente pelo tamanho de suas carteiras e de suas equipes.

A proposta foi deixar que a distribuição dos próprios dados determinasse os limites da seleção. O resultado permite identificar um grupo de escritórios com características quantitativas excepcionais, sem recorrer a avaliações subjetivas sobre sua importância, qualidade ou desempenho.

2. O método: como a matemática definiu as notas de corte

O estudo utilizou a base da edição ANÁLISE ADVOCACIA 2026, composta por 243 escritórios que declararam, juntos, 8.530.263 processos em carteira.

Duas informações foram consideradas: o número de processos e a quantidade de advogados de cada escritório. Uma carteira numerosa, isoladamente, não revela o tamanho da estrutura jurídica responsável por administrá-la. Da mesma forma, um grande número de advogados não significa necessariamente uma operação de contencioso de volume.

Para encontrar os limites, a Análise Editorial aplicou a regra de Tukey, método estatístico que permite identificar valores significativamente acima do padrão de uma distribuição. Em vez de utilizar a média, que pode ser distorcida por valores extremamente altos, o método examina a distribuição dos dados.

A aplicação da regra produziu duas notas de corte: 57.086 processos em carteira e 221 advogados. Para integrar a seleção, o escritório precisa superar os dois limites simultaneamente. Esses números resultam da regra estatística aplicada à base, e não de uma escolha prévia da redação.

3. O resultado: os 21 escritórios que formam a elite

A aplicação dos critérios identificou 21 escritórios, equivalentes a 8,6% dos 243 participantes. Juntos, eles concentram 4.208.658 processos, ou 49,3% dos 8.530.263 processos declarados.

Esses 21 escritórios constituem o grupo que a Análise Editorial classifica, para os fins deste estudo, como a elite estatística do contencioso de massa. A classificação decorre exclusivamente dos dois indicadores de escala, e não da qualidade dos serviços ou de especialização exclusiva.

4. A descoberta: duas escalas de operação dentro da elite

Os 21 escritórios não constituem um grupo homogêneo. A relação entre processos e advogados revelou dois blocos: o primeiro reúne 7 escritórios, com 621 a 1.106 processos por advogado; o segundo reúne 14, com 242 a 448.

Os dois blocos possuem equipes de tamanho relativamente próximo, mas a carteira média do segundo é praticamente metade da registrada no primeiro. Os sete escritórios do primeiro bloco reúnem, juntos, aproximadamente o mesmo volume de processos que os 14 do segundo.

Como identificamos os dois blocos

Os 21 escritórios foram ordenados pela relação processos por advogado. A maior diferença proporcional entre valores consecutivos, medida em escala logarítmica, ocorreu entre 448 e 621. Um segundo método estatístico, o k-means, confirmou a mesma divisão.

Mais processos por advogado não significam maior produtividade

Produtividade só pode ser comparada quando o trabalho realizado é equivalente. A base não registra a complexidade dos processos de cada escritório. Assim, a relação processos por advogado demonstra diferenças de escala, mas não permite concluir que um bloco seja mais produtivo ou eficiente que o outro.

5. Destaques e curiosidades

O JBM ficou fora da seleção

O JBM Advogados, de Bauru (SP), possui 236.280 processos em carteira, mas declarou 195 advogados, abaixo do limite de 221. Por isso, não está entre os selecionados, embora ultrapasse o corte de processos. Não se trata de avaliação de desempenho, mas de consequência dos critérios adotados.

Os extremos: LBCA e vezzilapolla.legal

Entre os selecionados, o Lee, Brock, Camargo Advogados (LBCA) apresenta 1.105,8 processos por advogado e o vezzilapolla.legal, 241,6. A média dos 21 é de 465,8 processos por advogado, contra 311,3 nos outros 222 escritórios.

Da "salsicharia do direito" à tecnologia

O contencioso de massa ganhou corpo no Brasil nos anos 2000. Em 2011, a revista Exame utilizou a expressão "salsicharia do direito" em reportagem sobre o JBM. Na avaliação da Análise Editorial, o setor evoluiu com investimentos em tecnologia e automação para atender à crescente demanda empresarial. O levantamento dimensiona parte desse mercado, mas não mede diretamente o grau de automação de cada participante.

6. Metodologia e limites do levantamento

Por que a regra de Tukey

Metade dos escritórios da base possui entre 7 mil e 27 mil processos, enquanto alguns ultrapassam 400 mil. A regra de Tukey utiliza o terceiro quartil somado a 1,5 vez o intervalo interquartil, evitando depender da média afetada pelos maiores valores. Aplicada a processos e advogados, estabeleceu 57.086 processos e 221 advogados como cortes.

Critérios alternativos

Pela mediana, o grupo teria 87 escritórios; pelo terceiro quartil, 42; pelo percentil 90, 13. A Análise Editorial adotou a regra de Tukey e a separação pelo maior salto, confirmada por k-means, por considerar esses métodos adequados à distribuição e ao objetivo do levantamento.

Limitações da base

Os dados de carteira e de equipe são informados pelos próprios escritórios. A classificação não mede qualidade, produtividade ou eficiência e não é uma autodeclaração de especialização. O Judiciário encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação, segundo o relatório Justiça em Números 2026. Esse estoque não é diretamente comparável às carteiras declaradas pelos escritórios, pois um mesmo processo pode constar em mais de uma carteira.

Referências às demais tabelas e ao gráfico integral

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