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2025 foi o ano das recuperações judiciais

Recorde de recuperações judiciais no ano de 2025 reflete crédito caro, ambiente financeiro restritivo e fragilidades na gestão das empresas

6 de February 15h18
(Imagem: Análise Editorial/Divulgação)

Segundo os dados disponíveis no Monitor de Recuperação Judicial, da consultoria RGF, o número de empresas em Recuperação Judicial alcançou 5.680 ao final de 2025. Em 2024, o número foi de 4.568, quase 25% menor do que em 2025. O recorde de empresas em recuperação judicial em 2025 é consequência de uma combinação de fatores econômicos e estruturais que se acumularam nos últimos anos e tiveram seu pico em um ambiente financeiro significativamente mais restritivo. Juros elevados, crédito restrito e linhas mais caras explicam parte da crise, mas falhas de gestão e sucessões mal planejadas também têm peso.

O país alcançou níveis extraordinários de inadimplência empresarial, com mais de 7 milhões de negócios endividados. Esse cenário criou um ciclo de restrição de crédito ainda mais severo, empurrando inúmeras companhias para a recuperação judicial como último recurso de sobrevivência. Segundo o sócio Gledson Campos, do Trench Rossi Watanabe, "o movimento foi intensificado pelo efeito cascata provocado por grandes empresas que ingressaram em recuperação — como Unigel, Ambipar, Bombril e Intercement — impactando cadeias inteiras de fornecedores e ampliando a fragilidade do setor produtivo".

Vale destacar que segmentos que, ao longo dos anos, se mostraram mais resilientes, como o agronegócio, passaram a recorrer com maior frequência a esse recurso. Este movimento reflete tanto dificuldades conjunturais quanto mudanças mais profundas no perfil de risco da economia real. Para produtores rurais de porte médio, a situação tem se agravado, atingindo dívidas entre R$ 50 milhões e R$ 250 milhões.

Já a advogada especializada em reestruturação e insolvência empresarial, fundadora do Micheletto Advogados, Giovanna Micheletto, aponta que, historicamente, crises cíclicas fazem parte do ciclo econômico. Momentos como o das empreiteiras, na época da Lava Jato; do varejo, durante a pandemia; e das livrarias, com a abertura do mercado a players digitais, entre outros. "Acredito, contudo, que muito deve ser atribuído à má gestão e falta de planejamento estratégico no momento que antecede a crise. Mudar a rota antes da crise se agravar pode ser decisivo e evitar um cenário de colapso financeiro", acrescenta Micheletto.

As recuperações judiciais viraram fôlego temporário para as empresas?

Os juros altos e crédito restrito foram os principais gatilhos para o avanço dos pedidos de recuperação judicial, mas pode-se dizer que não foram os únicos. De acordo com análises econômicas e levantamentos do Monitor RGF, os juros elevados dificultam renegociar dívidas.

Para o sócio do Trench Rossi Watanabe, "embora a recuperação judicial continue sendo um importante mecanismo para preservar empresas viáveis, parece que tem funcionado mais como um instrumento de fôlego temporário do que como uma solução efetiva de reestruturação". A afirmação se apoia na lentidão do procedimento e no baixo número de empresas que efetivamente sobrevivem após a recuperação. Já a fundadora do MIT Advogados afirma que o recurso ainda cumpre o papel. Principalmente na atualidade, que diversos fundos estão operando em "distressed assets", proporcionando a possibilidade de transformar em dinheiro (liquidez) bens ou direitos de devedores que, antes, não despertavam interesse do mercado.

Com a alta nas RJs, fornecedores, credores e parceiros passam a precisar se preocupar mais. Isso se traduz em menor previsibilidade de recebimentos, já que pagamentos passam a seguir cronogramas alongados definidos em planos de Recuperação Judicial, muitas vezes com descontos relevantes, e maior exposição ao efeito dominó causado pela crise de grandes companhias, que fragiliza cadeias inteiras. A associada, Mariana Conrado, do Trench Rossi Watanabe, afirma que muitas empresas só buscam a recuperação judicial em estágio avançado de deterioração. Em síntese, o cenário exige maior prudência, reforço de análises de risco e ajustes imediatos nas estratégias comerciais para preservar liquidez e minimizar perdas".

Previsões

Os fatores que pressionaram o número de recuperações no ano passado persistem no começo deste ano. Por ora, não há evidências concretas de reversão rápida: os juros seguem elevados e a inadimplência empresarial atingiu níveis elevados. Sem uma mudança significativa nas condições de crédito ou no custo do capital, a tendência é de manutenção da pressão.

Principalmente pelo endurecimento da política fiscal nacional com a reforma tributária e outras medidas, a previsão é dificultar, ainda mais, que empresas em crise possam se financiar momentaneamente com débitos fiscais. Micheletto diz: "A não ser que exista algum incentivo fiscal ou uma política de concessão de crédito em cenário macro, prevejo que este ano ainda seja muito afetado inclusive pela crise do Banco Master, que deve surtir um efeito cascata grande".

"Por fim, os processos devem ser mais céleres e as decisões devem ser mais coesas e uniformes. Para isso, é necessário investir em varas empresariais, o que permitirá a unificação de entendimentos, mesmo porque a falta de previsibilidade encarece o capital. Além disso, dificulta sua concessão e mecanismos de autocomposição, como a mediação, fazendo-se necessário, para isso, incentivar a cultura da paz", finaliza Mariana Conrado.

O mercado passou a conferir liquidez aos devedores por meio de ativos que investidores comuns antes não cogitavam, em razão dos riscos envolvidos. O dado aponta para a fragilidade financeira das empresas brasileiras, especialmente as menores, com margens reduzidas e acesso limitado a capital.

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