Para as advogadas Mais Admiradas, o sucesso não é um item de consumo e muito menos de concorrência, mas um direito conquistado por meio da excelência. É o que mostra a publicação ANÁLISE ADVOCACIA MULHER, que, desde 2021, destaca as profissionais cujas atuações foram as mais marcantes para o mercado, na visão dos executivos jurídicos, em diversas especialidades do direito.
Ao longo de todos esses anos, muitas mudanças permearam o cenário jurídico brasileiro. No entanto, o que se manteve foi o crescimento constante no número de advogadas eleitas Mais Admiradas em algumas especialidades na publicação. Dentre elas, duas se destacaram ao longo de todas as edições.
A primeira delas é Consumidor, que apresentou um crescimento acumulado no número de advogadas Mais Admiradas de 31% em todas as edições do ANÁLISE ADVOCACIA MULHER. A outra especialidade foi Concorrencial, que teve um aumento ininterrupto de 21% nas admirações.
A força do consumidor: tendências de mercado impulsionam mulheres
No não tão distante ano de 2021, a Intenção de Consumo das Famílias (ICF) chegou à marca de 71,6 pontos. Para a época, isso representava uma queda de 9,9% na média anual, se comparado com o ano de 2020. Se pularmos para os tempos atuais, segundo o último ICF, publicado em fevereiro de 2026, a intenção de consumo das famílias brasileiras já está na casa dos 104,3 pontos.
Com esse crescimento na intenção de consumo das famílias brasileiras, as demandas relacionadas à especialidade também se elevaram. Ao menos é o que enxerga Ellen Cristina Gonçalves Pires, advogada e sócia-fundadora do PG Advogados.
Segundo Ellen, a expansão do mercado de consumo digital, assim como as novas relações de consumo, motivaram esse cenário positivo na especialidade. Essa visão é confirmada pelas previsões da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-commerce (Abiacom), que projetou para 2026 um faturamento acima de 258 bilhões de reais para o comércio digital brasileiro. "A junção desses fatores motiva o aumento do número de mulheres Mais Admiradas na especialidade Consumidor, a meu ver", afirma a sócia do PG Advogados.
Segregação de especialidades
Para Fabíola Meira, sócia do Meira Breseghello Advogados e conselheira do Instituto Brasileiro de Estudos de Concorrência, Consumo e Comércio Internacional (IBRAC), existem outros fatores por trás deste aumento na especialidade. A advogada relembra que, antigamente, os escritórios não tratavam o direito do consumidor como uma área separada, mas sim como algo dentro do contencioso cível geral.
Com essa segregação, as profissionais acabaram ganhando mais destaque. Mas, na visão da sócia, esse não foi o único motivo por trás deste aumento constante. "Eu acredito que a especialidade de Consumidor tem uma barreira de entrada menor para as mulheres. Diferente de áreas mais masculinizadas, como o mercado financeiro, por exemplo", afirma Fabíola.
Contudo, esse não é um fator de consenso. Na visão de Fernanda Zucare, diretora jurídica da Zucare Advogados Associados, especialista em Direito do Consumidor e também eleita Mais Admirada pela especialidade no ANÁLISE ADVOCACIA 2026, esse crescimento é justificado por uma característica intrínseca na personalidade feminina.
Concorrencial: percepção social e a valorização das mulheres
Segundo o Quadro da Advocacia, até a redação deste artigo, existem 1.475.434 advogados atuando em todo o território brasileiro. Desse total, 769.313 são mulheres, enquanto 706.121 são homens. Percentualmente, a maioria de 52% dos profissionais de Direito brasileiros é do gênero feminino, ao passo que 48% pertencem ao gênero masculino.
Isso mostra como as mulheres têm dominado cada vez mais os espaços dentro do cenário jurídico nacional, incluindo na especialidade Concorrencial. Na visão de Ana Frazão, sócia-fundadora do Ana Frazão Advogados e professora associada de Direito Civil, Comercial e Econômico da Universidade de Brasília (UNB), isso ajuda a explicar o aumento de Mais Admiradas.
Para Ana, eleita Mais Admirada na especialidade Concorrencial no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, embora a área sempre tenha tido uma grande participação feminina, atualmente, ela apresenta um maior protagonismo para as mulheres. No entanto, em sua experiência acadêmica, ela acredita que esse aumento da presença feminina, principalmente nas admirações, tem origem nas salas de aula, e também na mentalidade dos escritórios.
"Eu diria que, para além da advocacia, isso envolveria também a questão acadêmica, em que as mulheres sempre tiveram um peso muito relevante nas salas de aula. Outro fator que explica esses números, para mim, não é propriamente uma mudança no mercado, mas sim uma percepção social da importância das mulheres", declara Frazão.
Leonor Cordovil, sócia do GCA - Grinberg Cordovil Advogados e presidente do conselho deliberativo do Instituto Brasileiro de Estudos de Concorrência, Consumo e Comércio Internacional (IBRAC), e Mais Admirada na especialidade Concorrencial no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, tem um ponto de vista complementar.
Cordovil aponta que a especialidade é uma área do direito pouco explorada nas universidades brasileiras por se tratar de um segmento de nicho, o que desperta o interesse destas profissionais. No entanto, ela argumenta que o exemplo de advogadas de sucesso também impulsiona esse crescimento no setor.
Tecnologia e equidade: impactos na carreira jurídica feminina
Desde 2020, período da pandemia, a modalidade digital tem ganhado cada vez mais força dentro das empresas, facilitando a entrada de mulheres no mercado. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), 6,6 milhões de pessoas trabalharam remotamente em 2024. Desse total, as mulheres são a maioria, representando 61,6% em todo o Brasil.
Grande parte desse número se dá pelos benefícios que a modalidade oferece. De acordo com dados da Check-up de Bem-estar 2025, levantamento realizado pela Vidalink, empresa que oferece benefícios corporativos, 38% das mulheres no Brasil possuem uma dupla jornada entre o trabalho e tarefas domésticas, incluindo a maternidade. Contudo, mesmo com esses desafios encarados pelas advogadas, os números dentro das especialidades de Consumidor e Concorrencial permaneceram em alta.
Para Fernanda Zucare, a possibilidade da atuação das profissionais na modalidade remota possibilitou um retorno mais fluido das mulheres ao mercado de trabalho. Além disso, também facilitou a conciliação com outras demandas.
"Isso possibilitou que as mulheres se mantivessem ativas, já que no passado, em determinado momento da vida, principalmente na maternidade, elas tinham que se afastar do seu trabalho. Então, eu acho que isso ajudou. Até mesmo porque nem todas contam com rede de apoio", complementa Zucare.
Leonor Cordovil também encara que a transição para a modalidade híbrida auxiliou as mulheres. A sócia do GCA - Grinberg Cordovil Advogados destaca que essa modalidade diminuiu o número de viagens de negócios necessárias, reverberando em impactos positivos para a atuação de mulheres na especialidade.
"Antigamente, toda vez que você precisava fazer uma reunião em Brasília, o que é muito comum na Concorrencial, precisávamos ir até lá. E agora, com as plataformas e com o auxílio da tecnologia, conseguimos fazer a reunião com a mesma qualidade a distância. Então, sem dúvida nenhuma, isso atrai as mulheres porque elas sentem que é uma conciliação possível", afirma Cordovil.
Além do digital
No entanto, nem todas enxergam que o digital teve tanta relevância assim para o aumento da presença feminina na advocacia. Para Fabíola Meira, a flexibilização digital pouco teve a ver com esse aumento no número de admirações de advogadas na área de Consumidor. "Eu gosto de pensar que as advogadas foram admiradas pela sua capacidade e entrega consistente, e não somente por estarem trabalhando de casa."
A sócia do Meira Breseghello Advogados ressalta também a exigência crescente das empresas por governança e responsabilidade social. Como resultado, as organizações passaram a cobrar mais diversidade e equidade dos escritórios parceiros, demandando mais mulheres em cargos de liderança, além de coerência entre o discurso institucional dos escritórios e sua prática cotidiana.
Tendências das especialidades para os próximos anos
Na avaliação de Ellen Cristina Gonçalves Pires, não há indicativos de queda na presença feminina na especialidade de Consumidor, nem nas admirações registradas pela pesquisa nos próximos anos.
Para a sócia-fundadora do PG Advogados, o Direito do Consumidor e as relações de consumo estão passando por desafios complexos. Entre eles, estão a personalização de experiências, a publicidade por meio de influenciadores, algoritmos e a Inteligência Artificial, fatores com os quais os consumidores estão aprendendo a lidar.
"Diante desse novo cenário, acredito que a quantidade de mulheres atuando na especialidade Consumidor continuará a crescer. Isso acontecerá pois as demandas tanto do lado empresarial, como programas de compliance e adequação, contratos digitais, entre outros, quanto as resoluções de conflitos e acordos entre empresas e consumidores, continuarão a crescer. Ao menos na minha visão", acrescenta Pires.
Apesar de ter perspectivas positivas para o futuro, Ana Frazão se posiciona de maneira mais cautelosa. E isso não apenas em relação à especialidade Concorrencial, mas à advocacia como um todo. Na experiência da sócia, a ascensão da Inteligência Artificial tem se mostrado "nefasta" para as mulheres em inúmeros aspectos, incluindo a discriminação algorítmica no mercado de trabalho.
Iniciativas de crescimento
A presença de mulheres na advocacia também é impulsionada por iniciativas criadas pelas próprias profissionais. Um dos exemplos é o Women in Antitrust (WIA), do qual Leonor Cordovil é cofundadora. Criado em 2017, o grupo tem como objetivo fornecer uma rede de apoio para as mulheres do setor, além de promover o trabalho das especialistas na área de Direito Concorrencial.
"Essa iniciativa tem um papel muito importante, porque as mulheres se sentem muito acolhidas na nossa especialidade. É um grupo que desempenha uma função relevante no acolhimento e fortalecimento dessa rede de mulheres, na ideia de ajuda mútua", aponta a advogada.
Isso mostra que o crescimento das advogadas em todo o território brasileiro não vai parar tão cedo. Além da pressão maior pela implementação de ações de diversidade e governança, isso se deve também ao esforço das profissionais que, independentemente dos desafios, buscam encontrar o seu espaço no mercado e o reconhecimento, tornando-se um fator de destaque no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER.

