O mapa do prestígio jurídico no Brasil raramente é neutro. Ele carrega, em suas coordenadas, a história de um país profundamente desigual na distribuição de oportunidades — e, ao mesmo tempo, a promessa de que esse desenho pode, gradualmente, mudar. Quando o anuário ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 revela que o Sudeste concentra 805 das 1.490 advogadas eleitas Mais Admiradas do país, o dado não é apenas estatístico: é um retrato de como o peso econômico e institucional ancora a visibilidade profissional feminina em territórios específicos. Afinal, onde há capital, há palco — e onde há palco, há reconhecimento.
Entretanto, os números também contam outra história — a de uma advocacia que, lentamente, aprende a olhar além de seus centros tradicionais. São Paulo avança com 30 novas reconhecidas em relação à edição anterior, enquanto o Paraná, de forma surpreendente, ultrapassa Minas Gerais no ranking regional. Esse movimento sugere que o reconhecimento começa a se redistribuir. É nessa tensão entre a força consolidada do Sudeste e a ascensão das demais regiões que a advocacia brasileira desenha, com suas próprias mãos, um futuro mais plural e representativo.
O Sudeste e sua centralidade histórica no mercado jurídico nacional
A predominância do Sudeste no anuário não é um fenômeno isolado nem circunstancial. Ela reflete décadas de concentração econômica, acadêmica e institucional em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Juntos, esses três estados somam 801 das 805 advogadas reconhecidas na região — uma densidade que diz tanto sobre a estrutura do mercado jurídico quanto sobre as condições que tornam a visibilidade profissional possível. São Paulo lidera com expressiva vantagem: 581 advogadas eleitas Mais Admiradas, o maior número entre todos os estados brasileiros. O Rio de Janeiro aparece em segundo lugar, com 151 reconhecidas. Minas Gerais ocupa a quarta posição nacional, com 69. O Espírito Santo, com apenas quatro advogadas eleitas, completa o panorama da região no anuário.
Para Fernanda Medina Pantoja, sócia do Galdino, Pimenta, Takemi, Ayoub, Salgueiro, Rezende de Almeida, do Rio de Janeiro, essa concentração tem uma explicação estrutural clara: "A região concentra os principais escritórios do país, empresas com operações complexas e os principais centros de decisão econômica e regulatória, o que naturalmente gera um ambiente de grande produção jurídica e visibilidade profissional." Além disso, ela aponta um movimento que, para além da infraestrutura do mercado, diz respeito ao protagonismo feminino em si. "O Sudeste tem sido um espaço em que as mulheres vêm conquistando cada vez mais posições de liderança na advocacia" — um avanço que, segundo a advogada, também passa pelo fortalecimento de redes de apoio e colaboração entre mulheres da área jurídica.
São Paulo registra o maior crescimento
Entre todos os estados brasileiros, São Paulo foi o que mais cresceu nesta edição do anuário. No total, 30 novas advogadas passaram a integrar o seleto grupo das Mais Admiradas em comparação com o levantamento anterior — um avanço que, para profissionais do setor, não é resultado do acaso. Trata-se, antes, do reflexo de transformações estruturais no mercado jurídico paulista: mais mulheres em bancas de grande porte, maior participação em colegiados e comitês estratégicos, e uma presença crescente nos espaços de formação de opinião do setor. Esse crescimento acompanha uma tendência já observada nos últimos anos, em que as redes de apoio entre advogadas têm desempenhado papel fundamental na ampliação da visibilidade feminina.
Luanda Backheuser, sócia do KLA Advogados, em São Paulo, enxerga nesse processo uma transformação que vai além da representatividade numérica. Segundo ela, "a advocacia é muito feminina, mas durante muito tempo as mulheres estavam muito concentradas em posição de backoffice." Hoje, no entanto, esse cenário mudou: "Elas passaram a aparecer mais, a se valorizar mais e também a assumir um nível de ambição profissional que, por muito tempo, foi socialmente associado apenas aos homens." Para Backheuser, a modernização do próprio ecossistema jurídico — com marketing, vendas e inovação ganhando espaço — também contribuiu para que as mulheres avançassem para a linha de frente, inclusive na captação de clientes, historicamente dominada pelos homens.
O reposicionamento do mapa jurídico nacional
Um dos dados mais significativos desta edição do Anuário Análise Advocacia Mulher 2026 é, sem dúvida, a posição do Paraná. Com 77 advogadas eleitas Mais Admiradas, o estado superou Minas Gerais — que registrou 69 reconhecidas — e conquistou a terceira posição nacional, à frente de um estado do Sudeste. Esse resultado não é apenas simbólico: ele indica, de forma concreta, que o reconhecimento profissional das mulheres na advocacia está progressivamente se descentralizando. O movimento aponta para a consolidação de mercados jurídicos regionais altamente qualificados, impulsionados pela interiorização de atividades econômicas e pela sofisticação das operações fora dos grandes centros tradicionais.
Luciana Lanna, sócia do Luciana Lanna Advocacia Ambiental, em Minas Gerais, interpreta esse reposicionamento com otimismo e sem defensividade. Para ela, "não se trata de uma perda de espaço do Sudeste, mas sim de um ganho de visibilidade e projeção para outras regiões." Lanna vai além e situa o fenômeno em um contexto mais amplo de maturidade do setor: "Essa ampliação do reconhecimento é excelente para a advocacia como um todo e também para o país, porque valoriza a diversidade de práticas jurídicas e de contextos regionais que existem no Brasil" — uma leitura que, por si só, já representa uma virada de perspectiva em relação ao olhar historicamente centralizado do mercado jurídico nacional.
Ser Mais Admirada: o peso do reconhecimento
Diferentemente de outros rankings do setor jurídico, o título de Mais Admirada no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER é construído inteiramente a partir da percepção dos próprios contratantes. Não é a imprensa, nem um comitê externo, nem colegas — é quem paga pelo serviço desses profissionais e genuinamente admira o resultado entregue. Isso confere ao reconhecimento uma dimensão particular, que vai além da visibilidade e alcança algo mais difícil de mensurar: a credibilidade construída no cotidiano da prática jurídica. Para as advogadas eleitas, especialmente as do Sudeste — onde a competição é mais intensa e o escrutínio mais rigoroso —, o título carrega também uma responsabilidade inescapável: a de ser referência para as que ainda estão chegando.
Fernanda Medina Pantoja reflete sobre esse peso com clareza: para ela, o reconhecimento "não se limita ao resultado de um caso ou a um momento específico da carreira, mas à trajetória como um todo" — e é justamente por isso que ele vai além da dimensão individual. "Ele reforça a responsabilidade de contribuir para que mais mulheres ocupem espaços de liderança na advocacia", afirma. "Somente quando o avanço individual deixa de ser uma exceção e passa a ser um movimento coletivo, existe verdadeira oportunidade de transformação do mercado jurídico." Luciana Lanna complementa essa perspectiva ao destacar o rigor implícito nesse tipo de avaliação: "São profissionais que acompanham sua atuação ao longo do tempo, em diferentes operações e contextos. E, se esse caminho não for consistente, coerente e verdadeiro, o julgamento tende a ser bastante rigoroso." O reconhecimento, portanto, não é concessão; é conquista.

