O mercado jurídico corporativo brasileiro está passando por uma reconfiguração geográfica. É o que revelam os dados da edição de 2026 do ANÁLISE ADVOCACIA MULHER. Pela primeira vez em anos recentes, a Região Sul (somando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) adicionou mais novos nomes à lista em termos absolutos do que o próprio estado de São Paulo.
Enquanto a advocacia paulista cresceu 31 posições (passando de 551 para 582 Mais Admiradas), o Sul somou 33 novas admirações. O fenômeno foi puxado principalmente pelo Paraná (+16 advogadas) e por Santa Catarina, que registrou um crescimento proporcional de quase 44%.
Mas o que explica esse avanço expressivo fora do eixo Faria Lima-Avenida Paulista? Para as lideranças femininas da região, a resposta passa pelo amadurecimento da economia local, pela adoção de novos modelos de negócios e por um movimento forte de apoio entre mulheres nos departamentos jurídicos.
Maturidade econômica e a "linguagem do business"
Para Bárbara Fracaro, sócia do Martinelli Advogados, o salto numérico do Sul não é exatamente uma ruptura abrupta, mas a consolidação de um processo de amadurecimento contínuo.
"Não se trata de uma 'quebra' de paradigma, mas sim de maturidade do mercado. O Sul sempre teve empresas fortes, extremamente estruturadas e que tomam decisões estratégicas aqui. O Paraná reúne cooperativas de grande porte e indústrias organizadas, enquanto Santa Catarina tem um perfil muito empreendedor e inovador. A advocacia acompanha esse movimento com a mesma sofisticação", analisa Bárbara.
Essa mesma leitura é feita por Camila Safatle, sócia fundadora da Camila Safatle Consultoria Jurídica. Ela destaca que o cliente sulista tem um perfil muito prático e exige dos advogados uma postura que vá além da técnica. "Os advogados da região estão cada vez mais trocando a linguagem jurídica pela linguagem do 'business' de seus clientes. O mercado passou a fazer uma escolha pragmática: ficou mais aberto a buscar excelência onde ela efetivamente está, e não apenas onde sempre esteve concentrada", pontua.
Acesso direto às sócias e o contraponto do full service
Um dos grandes motores apontados para essa ascensão regional é a consolidação das "boutiques especializadas". Com estruturas menos hierarquizadas que as grandes bancas paulistas, as boutiques do Sul oferecem aos diretores jurídicos algo muito valorizado: acesso direto a quem toma a decisão.
"Nos grandes full service de SP, a contratação é feita pelo sócio, mas quem cuida do seu caso é o associado júnior. Aqui, quando o cliente nos contrata, ele sabe que sou eu quem toco diretamente os projetos. Isso gera objetividade e assertividade nas entregas", explica Camila.
Apesar do avanço evidente desse modelo, Raquel Stein, sócia do Souto Correa Advogados (banca full service gaúcha com atuação nacional) faz um contraponto importante. Ela concorda que as boutiques ganharam muito espaço em áreas como compliance, tributário e responsabilidade médica, mas lembra que estruturas robustas ainda dominam frentes pesadas. "Em trabalhista, M&A e contencioso em geral, eu ainda vejo bastante a presença dos escritórios full service nesses casos mais estratégicos", avalia.
O fim da barreira geográfica e o fantasma da "fuga de cérebros"
Com o trabalho remoto consolidado, a barreira do CEP parece ter perdido força. Camila Safatle relata que, hoje, 30% da base de clientes de sua boutique sediada no Sul já vem do Sudeste, provando que a contratação se dá por reputação técnica e não apenas por custo-benefício local.
Isso levanta a questão: a histórica "fuga de cérebros" — onde talentos do Sul migravam para São Paulo em busca de maior complexidade e melhores salários — chegou ao fim?
Bárbara e Camila são otimistas. Ambas defendem que os escritórios da região evoluíram em governança e hoje oferecem planos de carreira e sofisticação jurídica capazes de reter grandes lideranças femininas em seus estados de origem.
No entanto, Raquel Stein traz uma dose de realidade à discussão, lembrando que os números do Sul vêm de uma base que historicamente era muito baixa.
"Ainda que tenha havido uma melhora, nós estamos indo para um número 'menos pior'. Vejo a fuga de cérebros como uma realidade muito presente. Quando comento que moro em Porto Alegre, as pessoas olham para mim quase como se eu dissesse que moro num lugar absurdo, porque ainda se considera São Paulo a elite, o time A. Essa fuga se dá onde estão as matrizes das empresas e por onde está o dinheiro", alerta Raquel, que viaja frequentemente à capital paulista para atender grandes clientes.
O desafio da consolidação e o novo sotaque corporativo
Para superar essa inércia histórica, Raquel aponta a importância estratégica das publicações focadas na regionalização: "Rankings que dão esse enfoque para a região Sul oferecem ferramentas para as empresas escolherem escritórios que não são aqueles do eixo Rio-SP. A gente pode dar visibilidade e ter acesso à informação sobre onde há talentos, não necessariamente nesse eixo."
O cenário desenhado na edição 2026 comprova que as advogadas do Sul já provaram sua excelência técnica. O desafio, agora, é transformar esse crescimento inédito em uma regra consolidada, mostrando ao mercado nacional que o sotaque corporativo não precisa ser apenas paulista.

