Dentre as 21 especialidades pesquisadas no anuário ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, cinco delas apresentam crescimento consistente, com três se destacando por resultados mais expressivos. De acordo com o ranking, as áreas cível, contratos empresariais e penalvêm crescendo ininterruptamente desde 2024. Em paralelo, consumidor e concorrencial apresentam crescimento moderado, mas constante nos últimos dois anos.
Esse avanço não ocorre de forma isolada. Ele reflete uma ampla transformação no perfil da advocacia brasileira, marcada pela maior presença feminina em áreas historicamente associadas a estruturas tradicionais e hierarquizadas. O dado indica não apenas crescimento numérico, mas também consolidação de protagonismo.
Cível
Há um movimento de consolidação, uma tendência natural do mercado fundado na força do crescente empoderamento feminino, segundo a sócia do Andrade Maia Advogados, Carolina de Azevedo Altafini. Com crescimento de 5,8% desde o ano de 2024, a área cível tem se tornado muito atrativa, pois, além do crescimento constante, é a segunda área com o maior número de eleitas.
A advocacia cível moderna exige cada vez mais habilidades de mediação e negociação para evitar a judicialização excessiva. Sobre essa ascensão feminina, Carolina afirma: "Acredito que nós, mulheres, temos um olhar holístico do mundo como parte do nosso DNA. Administrar nosso cotidiano como profissionais e compatibilizar com todas as outras atividades que desempenhamos viabiliza o treinamento da nossa habilidade de lidar com a complexidade das relações humanas. E acredito que essa habilidade é um diferencial na contribuição das mulheres."
Com apoio da Inteligência Artificial e da jurimetria, a área cível passou por uma revolução tecnológica profunda. O impacto das novas tecnologias na advocacia é inegável, especialmente com as inúmeras possibilidades trazidas pela IA. No entanto, requer muita capacitação das profissionais para fazerem bom uso dessa tecnologia, permitindo maior foco na estratégia jurídica e menos no operacional.
Contratos empresariais
Os contratos empresariais são, na verdade, um dos grandes motores da economia. O setor apresentou um crescimento de 15,2% no número de advogadas eleitas admiradas em 2024. Eles viabilizam operações, ampliam mercados e estruturam novas frentes de negócio. Quando há uma negociação contratual bem estruturada, é possível ampliar rapidamente um portfólio de produtos, otimizar custos de produção e até criar novas áreas de negócio. Em uma empresa farmacêutica, por exemplo, um contrato empresarial pode permitir a expansão ágil do portfólio por meio da aquisição ou licenciamento de produtos.
Falando em farmacêuticas, a sócia Marianne Albers, do Felsberg Advogados, enfatiza sua principal área de atuação, a indústria da saúde, setor em que esse movimento é mais evidente. "A grande maioria das diretorias jurídicas de farmacêuticas e de empresas do setor de saúde é composta por mulheres. Em outros setores, isso não é necessariamente verdade. Mas nas farmacêuticas e no setor de saúde em geral, a grande maioria das diretorias são ocupadas por mulheres", segundo a sócia.
Já para a sócia Fabyola En Rodrigues, do Demarest Advogados, há, sim, um crescimento consistente. Mas o dado mais relevante hoje não é somente a presença, e sim a natureza da atuação feminina. "O movimento deixou de ser quantitativo para se tornar essencialmente qualitativo. As mulheres passaram a atuar diretamente na estruturação de operações, na definição de alocação de riscos e na condução de negociações sensíveis", conclui.
O principal impulsionador é a própria sofisticação do mercado. Operações mais complexas exigem profissionais capazes de integrar a visão jurídica, de negócios e de risco de forma mais estruturada - o que naturalmente amplia o espaço para perfis diversos. Embora existam avanços institucionais e culturais, o que efetivamente consolida esse espaço é a atuação em ambientes complexos.
Penal
De forma geral, as mulheres vêm ampliando seu espaço no setor jurídico como um todo. O direito foi uma das primeiras áreas acadêmicas a ter presença feminina significativa, e essa evolução tem reflexo direto na iniciativa privada. Esse movimento é particularmente visível entre as gerações mais recentes de profissionais.
No campo do Direito Penal, essa transformação também está ligada à evolução da área. A advocacia criminal registrou um aumento de 19,7% no número de admiradas. A especialidade exige cada vez mais competências estratégicas, análise multidisciplinar e capacidade de gerir crises complexas. Essas habilidades, aliadas ao rigor técnico, têm ampliado o espaço para novas lideranças e contribuído para a consolidação de advogadas em casos de alta complexidade.
"O Direito Penal já não está mais restrito a idas em Delegacias e fóruns - ambientes historicamente masculinos. Hoje, ele é estratégico e exige uma intersecção e trabalho conjunto com outras áreas do Direito e equipes multidisciplinares, bem como diálogo não apenas com o jurídico das empresas como também com todos os demais departamentos", afirma Paula Lima Hyppolito Oliveira, sócia do Caputo Bastos e Serra Advogados e Presidente da AASP.
Segundo Hyppolito, a presença feminina tem contribuído para evidenciar a atuação estratégica na advocacia penal ao ampliar as perspectivas na análise de casos e na formulação de estratégias jurídicas. O direito penal, especialmente em sua vertente empresarial, exige hoje uma atuação que vai além da técnica processual: envolve gestão de riscos reputacionais, diálogo institucional, negociação com autoridades e coordenação de investigações internas.
Além disso, impacta positivamente a relação com clientes. Habilidades como construção de confiança, escuta ativa e capacidade de mediação são essenciais em investigações sensíveis. A advocacia criminal segue como função essencial à justiça, e a crescente presença feminina tem reforçado esse compromisso institucional com a proteção de direitos e com a qualidade da defesa técnica.

