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Entenda como ESG e Indústria 4.0 impulsionam a advocacia na indústria pesada

Áreas tradicionalmente dominadas por homens, como Petróleo, Automotivo e Celulose, concentram 36% das novas Mais Admiradas de 2026. Lideranças apontam que a exigência por um perfil híbrido e a pressão por diversidade transformaram os departamentos jurídicos em alavancas de competitividade

18 de March 9h35
(Imagem: Análise Editorial)

Se houvesse uma aposta sobre quais setores liderariam o crescimento da advocacia feminina corporativa no Brasil, poucos apontariam para o chamado "chão de fábrica". No entanto, os dados da edição 2026 do ranking Análise Advocacia Mulher revelam um paradoxo fascinante: são as indústrias pesadas, historicamente rotuladas como ambientes masculinos, que estão puxando a fila da representatividade.

Apenas quatro setores concentram 36% do total de novas advogadas Mais Admiradas (75 novos nomes): Papel e Celulose saltou 61% (de 36 para 58 profissionais); Automotivo e Autopeças cresceu 21% (indo a 118); enquanto Petróleo e Gás e Máquinas e Equipamentos avançaram 28% (ambos de 57 para 73 admiradas).

Mas o que está, de fato, acontecendo nas diretorias dessas indústrias para justificar um movimento tão expressivo?

Do centro de custo à alavanca estratégica

Para as especialistas que atuam na linha de frente dessas negociações, a resposta passa por uma mudança estrutural na forma como o C-Level enxerga o papel do advogado. Adriana Dantas, sócia e head da prática de Compliance e Investigações do Lefosse, explica que a área jurídica deixou de ser vista como um mero "centro de custo".

"Houve uma mudança clara de expectativa das diretorias, que passaram a enxergar o jurídico como alavanca de competitividade, reputação e ESG. Isso ampliou o espaço para perfis femininos com visão de negócio e liderança transversal. Pesam muito mais a capacidade de dialogar com o conselho, investidores e reguladores", analisa Adriana.

Essa pressão tem origem externa, como aponta Maria Fernanda Soares, sócia do Machado Meyer Advogados. Para ela, a cobrança da sociedade e de investidores institucionais por conselhos mais diversos transformou a presença feminina de algo "desejável" em algo estratégico. "Empresas perceberam que equipes diversas tomam decisões mais robustas, especialmente em operações complexas. O que mudou efetivamente foi o reconhecimento de que competência técnica não tem gênero", avalia.

Convergência: O ESG não substituiu a tradição

O salto expressivo nesses setores levanta uma questão natural: foram as novas pautas de transição energética e mercado de carbono que abriram essas portas?

Segundo Tatiana Campello, sócia do Demarest Advogados, o movimento não substituiu o direito tradicional, mas o tornou mais complexo. "Esses movimentos não são excludentes, são complementares. A agenda ESG trouxe temas como descarbonização e inovação, mas áreas clássicas como regulatório e tributário tornaram-se ainda mais sofisticadas. Não é uma dicotomia, mas o resultado natural da convergência entre inovação, regulação e especialização jurídica", explica Tatiana.

Maria Fernanda compartilha dessa visão, ressaltando que as advogadas souberam aproveitar o momento com maestria: "A urgência da pauta ESG abriu portas, e as advogadas estavam preparadas para atravessá-las, pois já dominavam a linguagem técnica e as relações de longo prazo com os clientes em áreas tradicionais".

O perfil "híbrido" e a Indústria 4.0

A transição da indústria de base tradicional para a chamada Indústria 4.0 redefiniu o currículo exigido para assessorar grandes operações. Hoje, temas como hidrogênio verde, mobilidade elétrica, cibersegurança e automação são o core dos negócios.

Para dialogar com executivos e engenheiros nesses ambientes de alta densidade técnica, a figura da advogada "purista" perdeu espaço para o perfil "híbrido".

"A transição para a Indústria 4.0 elevou o padrão. Não se trata de dominar o negócio como um engenheiro, mas de ter fluência suficiente para entender seus riscos, a alocação de responsabilidade em cadeias complexas e os impactos regulatórios de soluções industriais inovadoras", define Adriana Dantas.

Tatiana Campello endossa que, em setores como Automotivo e Máquinas, a tecnologia integrou-se à discussão legal. "Hoje não basta dominar o Direito de forma isolada. Discutem-se mobilidade elétrica, sensores, inteligência de dados. Compreender o modelo de negócio é essencial."

Para atingir esse nível, o esforço pode ser contínuo. Maria Fernanda relata que investiu tempo significativo em imersões fora do Direito. "Fiz isso justamente para conseguir sentar à mesa e contribuir de igual para igual com times de executivos que não debatem apenas questões jurídicas. O mercado passou a valorizar quem transita entre disciplinas."

Ainda a única mulher na sala: os desafios práticos

Apesar das estatísticas apontarem para um cenário de franca expansão, o dia a dia na indústria pesada ainda cobra um pedágio alto das lideranças femininas. A "fama" de clube masculino não desapareceu por completo.

A complexidade técnica e as margens regulatórias estreitas exigem credibilidade construída a pulso, como lembra Tatiana Campello. Mas as barreiras vão além da técnica. Maria Fernanda Soares compartilha a realidade de quem divide a liderança de operações de grande porte com a maternidade de gêmeos de quatro anos:

"Os desafios práticos ainda são reais e cotidianos. Em reuniões de negociação, não é raro ser a única mulher na sala — e, por vezes, a primeira reação dos interlocutores é assumir que você ocupa uma função de apoio, não de liderança. Há ainda interrupções constantes e menor tolerância a estilos de liderança diferentes do padrão masculino", desabafa.

Ainda assim, o tom para o futuro é de otimismo. "Vejo uma geração mais jovem de executivos que já naturaliza a presença feminina em posições de comando. O cenário melhorou significativamente em relação ao início da minha carreira. Avançamos, mas a plena equidade ainda é um objetivo a ser alcançado", conclui a advogada.

Os números da edição 2026 provam que o terreno já foi conquistado pela competência técnica. O desafio, agora, é transformar a invasão feminina na indústria pesada em uma regra estrutural e inquestionável.

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