O berço do Direito brasileiro muitas vezes não recebe os louros pela tradição. O Estado que primeiro sistematizou o ensino jurídico no país — Pernambuco, com a Faculdade de Direito de Olinda fundada em 1827 — fez isso em um mundo em que as mulheres sequer podiam frequentar aquelas salas de aula. Quase dois séculos depois, esse mesmo Estado reescreve a história com outros protagonistas. E o faz com dados que falam por si.
O ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 registra um aumento de 31% no número de advogadas pernambucanas eleitas Mais Admiradas, em relação ao último levantamento. Esse crescimento não é um acidente: é o resultado visível de transformações estruturais que redefinem o perfil da advocacia no Nordeste e, em escala maior, no Brasil. Para entender o que está por trás desse avanço, três das advogadas reconhecidas nesta edição compartilham suas trajetórias e perspectivas sobre tradição, inovação e os obstáculos que ainda persistem.
Uma tradição que pesa e impulsiona
A Faculdade de Direito de Olinda não é apenas um marco histórico. Ela é, ainda hoje, uma referência viva na cultura jurídica pernambucana. O rigor argumentativo, o apreço pela fundamentação sólida e o peso que a construção de reputação carrega no Estado são heranças diretas de quase dois séculos de formação jurídica. Para as advogadas que integram o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, esse legado é ao mesmo tempo ponto de partida e plataforma de inovação.
Elaine Ferreira da Silva, sócia do Rueda & Rueda Advogados, cresceu em Olinda e reconhece esse peso de forma concreta. "Como sempre estudei em Olinda, a tradição jurídica de Pernambuco, com a fundação da primeira faculdade de Direito do Brasil na cidade, certamente ressoou em minha decisão", afirma. Para ela, no entanto, a tradição não é um freio — é um impulso. "Acredito que essa base sólida impulsiona a busca por inovação e a adaptação às novas realidades do Direito. É a união do tradicional com o moderno, algo muito presente no estado com o Porto Digital", acrescenta.
Flávia Carolina de Souza Reis, sócia do FLH Advogados, reforça essa leitura ao destacar que a herança pernambucana segue ativa no cotidiano profissional. "Até hoje há uma cultura de admiração pelo rigor técnico e habilidade argumentativa, além de um forte senso institucional, que ainda marca a advocacia pernambucana e influencia diretamente a forma como exercemos o Direito", observa. Assim, tradição e contemporaneidade coexistem — e é nessa tensão produtiva que as advogadas pernambucanas constroem suas trajetórias.
O crescimento e o que ele revela
O salto de 16 para 21 Mais Admiradas no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER em Pernambuco não é apenas um número. Ele revela uma combinação de fatores que, juntos, redesenham o mapa do protagonismo feminino na advocacia do Estado. De um lado, cresce o número de mulheres altamente qualificadas em posições de liderança. De outro, avança a visibilidade de profissionais que já vinham construindo trajetórias sólidas, mas que nem sempre eram percebidas com a mesma projeção que seus pares masculinos.
Gabriela de Almeida Figueiras, sócia do Queiroz Cavalcanti Advocacia, tem uma perspectiva privilegiada sobre essa transformação. "No nosso próprio escritório, a maioria das lideranças é feminina — não só a base, mas as posições de comando", conta. Para ela, o crescimento resulta de um ciclo virtuoso: "Os escritórios têm buscado políticas reais de acolhimento à diversidade de gênero. É uma via de mão dupla: você dá à mulher a oportunidade e, com essa oportunidade, a mulher consegue mostrar o seu valor. Daí vem o reconhecimento."
Flávia Reis aponta, ainda, uma mudança de mentalidade no próprio mercado. "Também vejo um amadurecimento do próprio mercado, que passou a compreender diversidade como elemento de enriquecimento, de qualidade institucional e de melhor governança", afirma. Portanto, o crescimento registrado pelo ANÁLISE ADVOCACIA MULHER em Pernambuco não é fruto do acaso — é reflexo de uma transformação estrutural em curso, que combina mérito, visibilidade e cultura organizacional mais inclusiva.
Os obstáculos concretos que ainda travam a ascensão feminina
O avanço nos números é inequívoco, mas não apaga os obstáculos concretos que ainda limitam a ascensão feminina na advocacia. O próprio ANÁLISE ADVOCACIA MULHER existe porque muitas advogadas acumulam votos expressivos e não atingem a nota de corte do ranking misto. Esse dado é, antes de tudo, um diagnóstico: visibilidade e reconhecimento ainda não se traduzem automaticamente em acesso às posições de maior projeção no mercado.
Flávia Reis explica que as assimetrias entre homens e mulheres têm raízes estruturais. "As mulheres normalmente têm que enfrentar mais obstáculos para fazer a sua carreira profissional ser bem-sucedida e reconhecida. Fatores como machismo, dupla jornada no cuidado com os filhos e a casa, medo de violência física e tantas outras coisas dessa natureza fazem com que a vida profissional de muitas mulheres ainda ande mais devagar do que deveria", afirma. A advogada exemplifica com sua própria experiência: "Quantas vezes não tive minha fala atropelada por homens em reuniões nas quais eu era a protagonista? E o receio de ter que ir discutir questões ambientais delicadas no interior de estados do Norte e Nordeste? E a culpa de viajar deixando filhos pequenos, nas muitas vezes em que a minha presença era necessária em outro local?"
Gabriela Figueiras, por sua vez, aponta para a responsabilidade direta dos escritórios. "Se o escritório quer reter uma advogada qualificada, precisa ter políticas diferenciadas para isso — porque ela vai viver desafios que são diferentes", diz. E vai além: "Se o escritório prega diversidade, mas todos os sócios são homens, essa política não está funcionando."
Da mesma forma, Elaine Silva destaca que a barreira começa antes mesmo das disputas por promoção. Segundo ela, "a persistência de vieses inconscientes e estruturais no ambiente de trabalho, a dificuldade em conciliar a vida profissional com as demandas familiares e pessoais e a falta de redes de apoio e mentorias adequadas" estão entre os principais freios à ascensão feminina na advocacia.
O futuro do Direito pernambucano passa pela diversidade
A tradição que Pernambuco carrega desde 1827 não é um peso — é uma base. E é sobre essa base que as advogadas reconhecidas pelo ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 projetam um futuro que combina inovação tecnológica, protagonismo feminino e inserção em debates jurídicos globais. Esse futuro, no entanto, não chegará por inércia: ele exige escolhas deliberadas de escritórios, faculdades e do Judiciário.
Elaine Silva é direta sobre o papel central da tecnologia nesse cenário. Citando artigo que escreveu para o livro Mulheres no Direito, ela afirma: "A advocacia 4.0 é um caminho sem volta, e o Direito mudará mais nos próximos 5 anos do que nos últimos 200." Para ela, ferramentas como inteligência artificial e jurimetria serão pilares essenciais desse novo Direito pernambucano.
Flávia Reis, por sua vez, estrutura esse futuro em três eixos complementares. "Desejo que o futuro do Direito pernambucano seja marcado pela capacidade de reinterpretar a tradição, adaptando-a a um mundo em constante transformação", afirma. Esses eixos envolvem a integração entre tradição e inovação, a atuação em setores estratégicos — como energia e sustentabilidade — e a internacionalização do debate jurídico.
Gabriela Figueiras conecta o futuro da advocacia ao desenvolvimento econômico e social do Estado. "Espero que o Direito pernambucano possa ser uma força motriz para a nossa economia. O direito não é um fim em si mesmo — ele tem que contribuir para a sociedade", conclui. Desse modo, o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 não celebra apenas conquistas passadas — ele mapeia, com precisão, o caminho que ainda há a percorrer.

