Da Faculdade de Olinda às Mais Admiradas: a tradição pernambucana ganha novos rostos | Análise
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Da Faculdade de Olinda às Mais Admiradas: a tradição pernambucana ganha novos rostos

Quase dois séculos depois da Faculdade de Direito de Olinda, Pernambuco reescreve sua história jurídica, com 21 mulheres eleitas Mais Admiradas nessa edição

16 de March 8h15

O berço do Direito brasileiro muitas vezes não recebe os louros pela tradição. O Estado que primeiro sistematizou o ensino jurídico no país — Pernambuco, com a Faculdade de Direito de Olinda fundada em 1827 — fez isso em um mundo em que as mulheres sequer podiam frequentar aquelas salas de aula. Quase dois séculos depois, esse mesmo Estado reescreve a história com outros protagonistas. E o faz com dados que falam por si.

O ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 registra um aumento de 31% no número de advogadas pernambucanas eleitas Mais Admiradas, em relação ao último levantamento. Esse crescimento não é um acidente: é o resultado visível de transformações estruturais que redefinem o perfil da advocacia no Nordeste e, em escala maior, no Brasil. Para entender o que está por trás desse avanço, três das advogadas reconhecidas nesta edição compartilham suas trajetórias e perspectivas sobre tradição, inovação e os obstáculos que ainda persistem.

Uma tradição que pesa e impulsiona

A Faculdade de Direito de Olinda não é apenas um marco histórico. Ela é, ainda hoje, uma referência viva na cultura jurídica pernambucana. O rigor argumentativo, o apreço pela fundamentação sólida e o peso que a construção de reputação carrega no Estado são heranças diretas de quase dois séculos de formação jurídica. Para as advogadas que integram o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026, esse legado é ao mesmo tempo ponto de partida e plataforma de inovação.

Elaine Ferreira da Silva, sócia do Rueda & Rueda Advogados, cresceu em Olinda e reconhece esse peso de forma concreta. "Como sempre estudei em Olinda, a tradição jurídica de Pernambuco, com a fundação da primeira faculdade de Direito do Brasil na cidade, certamente ressoou em minha decisão", afirma. Para ela, no entanto, a tradição não é um freio — é um impulso. "Acredito que essa base sólida impulsiona a busca por inovação e a adaptação às novas realidades do Direito. É a união do tradicional com o moderno, algo muito presente no estado com o Porto Digital", acrescenta.

Flávia Carolina de Souza Reis, sócia do FLH Advogados, reforça essa leitura ao destacar que a herança pernambucana segue ativa no cotidiano profissional. "Até hoje há uma cultura de admiração pelo rigor técnico e habilidade argumentativa, além de um forte senso institucional, que ainda marca a advocacia pernambucana e influencia diretamente a forma como exercemos o Direito", observa. Assim, tradição e contemporaneidade coexistem — e é nessa tensão produtiva que as advogadas pernambucanas constroem suas trajetórias.

O crescimento e o que ele revela

O salto de 16 para 21 Mais Admiradas no ANÁLISE ADVOCACIA MULHER em Pernambuco não é apenas um número. Ele revela uma combinação de fatores que, juntos, redesenham o mapa do protagonismo feminino na advocacia do Estado. De um lado, cresce o número de mulheres altamente qualificadas em posições de liderança. De outro, avança a visibilidade de profissionais que já vinham construindo trajetórias sólidas, mas que nem sempre eram percebidas com a mesma projeção que seus pares masculinos.

Gabriela de Almeida Figueiras, sócia do Queiroz Cavalcanti Advocacia, tem uma perspectiva privilegiada sobre essa transformação. "No nosso próprio escritório, a maioria das lideranças é feminina — não só a base, mas as posições de comando", conta. Para ela, o crescimento resulta de um ciclo virtuoso: "Os escritórios têm buscado políticas reais de acolhimento à diversidade de gênero. É uma via de mão dupla: você dá à mulher a oportunidade e, com essa oportunidade, a mulher consegue mostrar o seu valor. Daí vem o reconhecimento."

Flávia Reis aponta, ainda, uma mudança de mentalidade no próprio mercado. "Também vejo um amadurecimento do próprio mercado, que passou a compreender diversidade como elemento de enriquecimento, de qualidade institucional e de melhor governança", afirma. Portanto, o crescimento registrado pelo ANÁLISE ADVOCACIA MULHER em Pernambuco não é fruto do acaso — é reflexo de uma transformação estrutural em curso, que combina mérito, visibilidade e cultura organizacional mais inclusiva.

Os obstáculos concretos que ainda travam a ascensão feminina

O avanço nos números é inequívoco, mas não apaga os obstáculos concretos que ainda limitam a ascensão feminina na advocacia. O próprio ANÁLISE ADVOCACIA MULHER existe porque muitas advogadas acumulam votos expressivos e não atingem a nota de corte do ranking misto. Esse dado é, antes de tudo, um diagnóstico: visibilidade e reconhecimento ainda não se traduzem automaticamente em acesso às posições de maior projeção no mercado.

Flávia Reis explica que as assimetrias entre homens e mulheres têm raízes estruturais. "As mulheres normalmente têm que enfrentar mais obstáculos para fazer a sua carreira profissional ser bem-sucedida e reconhecida. Fatores como machismo, dupla jornada no cuidado com os filhos e a casa, medo de violência física e tantas outras coisas dessa natureza fazem com que a vida profissional de muitas mulheres ainda ande mais devagar do que deveria", afirma. A advogada exemplifica com sua própria experiência: "Quantas vezes não tive minha fala atropelada por homens em reuniões nas quais eu era a protagonista? E o receio de ter que ir discutir questões ambientais delicadas no interior de estados do Norte e Nordeste? E a culpa de viajar deixando filhos pequenos, nas muitas vezes em que a minha presença era necessária em outro local?"

Gabriela Figueiras, por sua vez, aponta para a responsabilidade direta dos escritórios. "Se o escritório quer reter uma advogada qualificada, precisa ter políticas diferenciadas para isso — porque ela vai viver desafios que são diferentes", diz. E vai além: "Se o escritório prega diversidade, mas todos os sócios são homens, essa política não está funcionando."

Da mesma forma, Elaine Silva destaca que a barreira começa antes mesmo das disputas por promoção. Segundo ela, "a persistência de vieses inconscientes e estruturais no ambiente de trabalho, a dificuldade em conciliar a vida profissional com as demandas familiares e pessoais e a falta de redes de apoio e mentorias adequadas" estão entre os principais freios à ascensão feminina na advocacia.

O futuro do Direito pernambucano passa pela diversidade

A tradição que Pernambuco carrega desde 1827 não é um peso — é uma base. E é sobre essa base que as advogadas reconhecidas pelo ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 projetam um futuro que combina inovação tecnológica, protagonismo feminino e inserção em debates jurídicos globais. Esse futuro, no entanto, não chegará por inércia: ele exige escolhas deliberadas de escritórios, faculdades e do Judiciário.

Elaine Silva é direta sobre o papel central da tecnologia nesse cenário. Citando artigo que escreveu para o livro Mulheres no Direito, ela afirma: "A advocacia 4.0 é um caminho sem volta, e o Direito mudará mais nos próximos 5 anos do que nos últimos 200." Para ela, ferramentas como inteligência artificial e jurimetria serão pilares essenciais desse novo Direito pernambucano.

Flávia Reis, por sua vez, estrutura esse futuro em três eixos complementares. "Desejo que o futuro do Direito pernambucano seja marcado pela capacidade de reinterpretar a tradição, adaptando-a a um mundo em constante transformação", afirma. Esses eixos envolvem a integração entre tradição e inovação, a atuação em setores estratégicos — como energia e sustentabilidade — e a internacionalização do debate jurídico.

Gabriela Figueiras conecta o futuro da advocacia ao desenvolvimento econômico e social do Estado. "Espero que o Direito pernambucano possa ser uma força motriz para a nossa economia. O direito não é um fim em si mesmo — ele tem que contribuir para a sociedade", conclui. Desse modo, o ANÁLISE ADVOCACIA MULHER 2026 não celebra apenas conquistas passadas — ele mapeia, com precisão, o caminho que ainda há a percorrer.

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