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Inteligência Artificial redefine o treinamento em escritórios de advocacia

Bancas ampliam o uso da tecnologia no treinamento de talentos, mas ganhos de escala dependem de curadoria de dados, gestão e supervisão humana

7 de April 14h18
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

Mesmo com os avanços exponenciais da inteligência artificial (IA), um questionamento permanece: poderia a ferramenta substituir o papel do ser humano? No contexto dos treinamentos corporativos, a resposta pode ser sim, ao menos no sentido de suporte e execução. Isso ocorre porque cada vez mais a tecnologia é utilizada por empresas e escritórios de advocacia como uma forma de reduzir custos e acelerar a obtenção de resultados práticos. 

Segundo o levantamento Workplace Learning Report 2025, realizado pela plataforma LinkedIn, 71% dos profissionais de Treinamento e Desenvolvimento (T&D) já exploram, experimentam ou integram a IA em suas rotinas de trabalho. O objetivo é converter a inteligência artificial em um "motor de agilidade", permitindo que as organizações superem o dilema entre escala e personalização ao desenvolver talentos. 

Por que utilizar a IA nos treinamentos?

Segundo o ANÁLISE ADVOCACIA DIVERSIDADE & INCLUSÃO 2025, 44% dos escritórios de advocacia já utilizam Inteligência Artificial para a criação de treinamentos. Entre essas bancas destaca-se o Bernardo Grossi Advogados (Grossi.Law), cuja estrutura interna conta com um modelo alimentado por políticas, códigos de cultura, trilhas de carreira e metodologias de trabalho para otimizar o desenvolvimento de talentos. Na visão do Bernardo Grossi, sócio do escritório, a tecnologia permite uma aceleração considerável na assimilação de processos internos.

 "Há um ganho de escala na cultura organizacional. Não apenas em escritórios de advocacia, mas em qualquer organização, é comum a reclamação de que novos colaboradores demoram para compreender como as coisas funcionam. Acredito que a IA pode acelerar e aperfeiçoar esse aprendizado", argumenta Grossi.

O Meira Breseghello Advogados implementou a IA para facilitar a capacitação de seus colaboradores. A sócia do escritório, Fabíola Meira, acredita que a IA tende a gerar ganhos relevantes de produtividade, além de ampliar a capacidade cognitiva assistida, permitindo que os profissionais organizem informações com rapidez e explorem diferentes caminhos técnicos na solução de problemas jurídicos.

"O uso de IA no contexto de treinamentos pode ser bastante positivo, desde que a tecnologia seja tratada como instrumento de apoio à formação — e não como substituta do pensamento crítico, da supervisão e da experiência humana", pondera Fabíola.

Essa perspectiva também é compartilhada pela general manager do Santos & Santana, Juliana Valongo, que defende o uso da ferramenta com responsabilidade. No entanto, ela ressalta que, apesar dos benefícios operacionais, a tecnologia deve estar sempre subordinada à inteligência humana, à cultura da banca e aos preceitos da ética profissional.

"Esse equilíbrio é o que transforma a IA de um risco potencial em uma aliada no desenvolvimento de novos talentos. Por isso, estamos atentos à utilização da tecnologia como suporte, e não como a ferramenta principal do escritório", complementa Valongo.

Os benefícios da IA em treinamentos

Quando critérios bem definidos são estabelecidos na adoção da inteligência artificial para a capacitação dos colaboradores, torna-se possível quantificar inúmeros ganhos operacionais. Juliana Valongo aponta quais foram os principais benefícios observados quando a ferramenta foi utilizada para treinar profissionais internamente:

  • Agilidade no aprendizado: Novos colaboradores conseguem compreender conceitos, fluxos e referências de forma mais célere, reduzindo o tempo de adaptação à cultura organizacional.
  • Personalização do treinamento: As ferramentas de inteligência artificial permitem adaptar as trilhas de aprendizado conforme o nível de conhecimento, a área de atuação e as necessidades individuais de cada profissional.
  • Padronização de qualidade: Os sistemas de IA podem assegurar que o conteúdo transmitido siga um rigor técnico constante, garantindo que todos os colaboradores recebam orientações alinhadas aos padrões estabelecidos pela organização.
  • Escalabilidade do conhecimento: A tecnologia permite que conteúdos técnicos, jurisprudência, doutrina e materiais internos sejam organizados, atualizados e acessados de forma rápida e padronizada.
  • Apoio à pesquisa: No contexto jurídico, a ferramenta pode subsidiar pesquisas iniciais e estruturar materiais, liberando o tempo do profissional para uma análise mais crítica e estratégica dos casos.

E os riscos?

No entanto, toda moeda possui dois lados e, no treinamento de colaboradores, o cenário não seria diferente. Juliana Valongo também explicita os principais desafios que as bancas de advocacia enfrentam ao implementar uma ferramenta para capacitar profissionais. Entre os obstáculos destacados pela especialista, encontram-se:

  • Dependência da tecnologia: Quando a IA deixa de ser um suporte para se tornar a fonte principal de conhecimento, surge o risco de empobrecimento do raciocínio crítico por parte dos colaboradores.
  • Aprendizado superficial: A oferta de respostas prontas pela inteligência artificial pode reduzir o esforço intelectual necessário para que os profissionais obtenham uma formação jurídica sólida.
  • Riscos éticos e de confidencialidade: A ausência de regras claras pode ocasionar o vazamento de dados sensíveis ou a utilização de fontes não confiáveis durante o processo de instrução.
  • Homogeneização do pensamento: A sobrecarga de modelos automatizados pode limitar a diversidade de abordagens jurídicas e argumentativas, restringindo a criatividade intelectual dos colaboradores.
"O uso inadequado ou indiscriminado da IA para treinar colaboradores pode gerar inúmeros riscos. Por isso, a implementação de políticas claras e a manutenção da supervisão humana são essenciais para o sucesso da estratégia", destaca Valongo.

Fatores de atenção

Diante dos potenciais riscos gerados pela adoção da inteligência artificial na criação de treinamentos, surgem pontos de atenção que as bancas devem considerar. Bernardo Grossi defende que certas diretrizes são prioritárias para garantir a eficácia do aprendizado.

"O primeiro ponto que considero essencial é não terceirizar o treinamento para a ferramenta. Se não criarmos uma trilha de conhecimento própria, a IA acabará pensando de forma genérica como a internet e não de acordo com as particularidades do escritório ou da organização", argumenta Grossi.

Na visão do advogado, a decisão de não delegar totalmente o treinamento à tecnologia exige uma curadoria humana rigorosa. Ele acredita que alguém deve ser responsável tanto pelos dados que alimentam o modelo quanto pelas informações que a equipe consome no dia a dia.

Além disso, a facilidade proporcionada pelas ferramentas tecnológicas também podem gerar uma zona de conforto indevida para os profissionais. Segundo Grossi, embora a IA eleve a produtividade e o volume de entregas, ela pode reduzir o senso crítico, já que as respostas são obtidas com pouco esforço.

"É necessário manter uma rotina de intervenção ativa nos resultados e até provocar os profissionais a resolverem determinados problemas sem a intermediação da tecnologia", acrescenta o sócio.

Grossi levanta a questão da conformidade ética e técnica. Para ele, não basta analisar a base legal e a transparência; os escritórios de advocacia precisam orientar os colaboradores sobre os limites do que pode ser executado com o auxílio da inteligência artificial. Somente assim, ocorre o uso consciente da ferramenta em todos os departamentos da organização.

Como avaliar?

Neste cenário de múltiplas variáveis, surge o desafio de mensurar com precisão a eficácia da ferramenta e realizar os ajustes necessários nas rotas de aprendizado. Para Fabíola Meira, o sucesso da implementação depende do acompanhamento de métricas qualitativas.

 A advogada indica que os indicadores mais relevantes envolvem o ganho de produtividade aliado à manutenção da qualidade, a redução de retrabalho e o nível de domínio da ferramenta. Além disso, ela destaca a importância de avaliar a capacidade de identificação de riscos e a evolução da autonomia técnica dos colaboradores. "O ponto central é verificar se a IA está contribuindo para formar profissionais mais consistentes, e não apenas mais rápidos", complementa Meira.

Em suma, a inteligência artificial oferece benefícios e riscos significativos para as bancas que a utilizam na capacitação de equipes. Para equilibrar essa balança, os escritórios de advocacia devem realizar uma auditoria rigorosa dos resultados, focando na produtividade real, na segurança jurídica e, sobretudo, no desenvolvimento da autonomia técnica dos seus profissionais. Afinal de contas, mesmo que o treinamento possa ser feito por meio de máquinas, o ser humano ainda é a peça central que faz tudo acontecer.

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