Inovação e governança: O redesenho necessário para a era da IA | Análise
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Inovação e governança: O redesenho necessário para a era da IA

Empresas e bancas de advocacia têm redesenhado processos para otimizar resultados na implementação de tecnologias como a IA

24 de February 10h41
(Imagem: Análise Editorial/Reprodução)

A inovação sem processos resulta em uma bagunça automatizada. Com a ascensão das tecnologias no ambiente corporativo, principalmente a Inteligência Artificial (IA), as organizações têm priorizado a eficiência operacional e a gestão de processos como pilares estratégicos da transformação digital.

Segundo dados da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e E-Commerce (Abiacom), em parceria com a Brazil Panels e a escola de negócios Lideres.ai, 72% das empresas nacionais ainda estão em estágios iniciais ou experimentais na adoção da IA. Essa cautela reflete a priorização de uma estrutura processual sólida antes da implementação tecnológica. Sem essa base, a inovação gera apenas retrabalho e, em casos extremos, até mesmo o desperdício de capital investido.

Redesenho de processos

Para acomodar as novas tendências tecnológicas de maneira eficiente, as empresas precisam readaptar seus fluxos internos. Essa necessidade tornou-se ainda mais evidente com a ascensão da inteligência artificial. Segundo a 4ª edição de uma pesquisa da Bain & Company, o uso da tecnologia saltou de 12% em 2024 para 25% das empresas entrevistadas em 2025.

De acordo com o anuário ANÁLISE ADVOCACIA 2026, 47% das 723 bancas eleitas Mais Admiradas já utilizam a inteligência artificial em suas operações. Os principais motores dessa implementação, de acordo com os próprios escritórios, são a eficiência e a economia geradas pela tecnologia nos fluxos de trabalho.

Contudo, nesta corrida para implementar a IA e superar a concorrência, as organizações devem preparar seus fluxos de trabalho para absorver a inovação com o mínimo de impacto negativo. Josué Ferreira Lopes, sócio-gerente do Lopes e Rezende Sociedade de Advogados, ressalta que, para que isso aconteça, é preciso uma estrutura de engenharia jurídica capaz de conferir segurança à atividade empresarial.

"É importante ter um controle das atividades da empresa, sejam comerciais ou internas, para estabelecer padrões bem definidos de execução. Como resultado, é possível manter o padrão adotado anteriormente, mesmo diante de inovações tecnológicas", afirma o sócio-gerente do Lopes e Rezende Sociedade de Advogados.

O advogado enxerga que o redesenho destes processos exige uma gerência firme, alinhada aos preceitos legais e regimentos internos. O objetivo é garantir que a gestão receba dados concretos e eficazes para a tomada de decisão mais assertiva. Por isso, o sócio elucida como esse processo deve ser feito por parte das organizações.

"O profissional precisa seguir os padrões legais e adotar um regimento interno que coadune com os preceitos normativos. Para isso, é preciso estabelecer padrões de produção para que cada colaborador saiba exatamente o que executar", aponta Josué Ferreira.

Evandro Grili, diretor executivo do Brasil Salomão e Mattes Advocacia, observa que esse movimento não é recente. Na visão do diretor, esses redesenhos começaram como um processo de adaptação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), mas com o tempo, o foco evoluiu. "Em um primeiro momento, seguiu-se então essa linha de pensamento. Mas agora, olhamos para a digitalização como busca por eficiência de trabalho", afirma Grili.

Inovação nos escritórios de advocacia

O anuário Análise Advocacia 2026 revelou que a administração falha dos escritórios é a segunda maior queixa dos executivos, citada por 24% dos entrevistados. Diante deste cenário, redesenhar processos deixa de ser apenas um marco evolutivo e torna-se uma oportunidade para corrigir fluxos obsoletos.

Evandro Grili pondera que, embora a inovação seja vital, o processo exige uma "governança humana" na ponta final. Essa abordagem assegura uma prestação de serviços organizada e alinhada às expectativas dos clientes. 

"Em setores com alto volume de contencioso, as empresas se preocupam inegavelmente com a qualidade da entrega e a expertise da banca. O desafio é garantir que a experiência jurídica analógica se converta em resultados digitais com o mesmo rigor", complementa.

A urgência dessa transição é reforçada por dados do Instituto Brasileiro de Governança de Processos (IBGP): 18% das empresas brasileiras ainda não formalizam seus processos mais críticos. Sem essa padronização, as operações dependem do conhecimento tácito das equipes, o que dificulta a adoção de novas tecnologias e a manutenção do padrão de qualidade.

Para combater essa dependência, o Brasil Salomão e Mattes Advocacia adota, há 30 anos, um modelo de governança empresarial composto por conselho de sócios, diretoria executiva e comitês técnicos. Segundo Grili, essa estrutura garante a padronização em suas 13 unidades no Brasil, garantindo segurança e previsibilidade.

"Conseguimos essa uniformidade graças aos passos que demos há quase três décadas. Olhamos para o nosso negócio como uma empresa de mercado, gerida por regras e modelos de governança sólidos", exemplifica o diretor.

Governança clara e definição de responsabilidades

Ao implementar uma tecnologia, seja Inteligência Artificial ou algum outro processo de automação, é preciso estabelecer uma governança clara de responsabilidades. Como resultado, obtém-se um processo escalável e fundamentado. Grili argumenta que, para isso, a organização precisa de uma "espinha dorsal" cultural.

"Se você não tiver um ambiente organizado e um fluxograma de como as coisas terão que acontecer, certamente não será possível implementar nada. Até porque, dentro de um escritório de advocacia, acaba-se tendo vários 'mini escritórios', onde cada área trabalha de um jeito diferente", explica o diretor.

Neste ponto, a digitalização é essencial para conectar todas as áreas em um grande organismo. No entanto, Grili aponta que ainda é preciso manter a figura humana para revisar o processo e assegurar os melhores resultados. "Independente se é um escritório com muitos anos de fundação ou se foi fundado ontem, o mercado sempre buscará qualidade. Não há como escapar disso", conclui.

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